ESDE
Programa Complementar- mod. VI
Roteiro 3
15 – A LOUCURA E O ESPIRITISMO
Há também pessoas que vêem perigo em todos os lugares e em tudo o que não conhecem e rapidamente apontam uma conseqüência desfavorável no fato de algumas pessoas, ao estudar a Doutrina Espírita, terem perdido a razão. Como é que homens de bom senso podem ver nesse fato uma objeção séria? Não ocorre o mesmo com todas as preocupações intelectuais sobre um cérebro fraco? Sabe-se lá o número de loucos e maníacos produzidos pelos estudos matemáticos, médicos, musicais, filosóficos e outros? É preciso, por causa disso, banir esses estudos? O que prova esse fato? Muitas vezes os trabalhos corporais deformam ou mutilam os braços e as pernas, que são os instrumentos da ação material; pode acontecer que os trabalhos da inteligência danifiquem o cérebro, o instrumento pelo qual o pensamento se expressa. Mas se o instrumento está quebrado, o Espírito está intacto, e quando se libertar do corpo vai se achar de posse e na plenitude de suas capacidades. É dessa maneira, como homem, um mártir do trabalho.
Qualquer uma das grandes preocupações do Espírito pode ocasionar a loucura: as ciências, as artes e a própria religião mostram-nos vários casos. A loucura tem como causa principal uma predisposição orgânica do cérebro, que o torna mais ou menos acessível a algumas impressões. Se houver predisposição para a loucura, ela assume um caráter de preocupação principal, se transformando em idéia fixa, podendo tanto ser a dos Espíritos, em quem com eles se ocupou, como poderá ser a de Deus, dos anjos, do diabo, da fortuna, do poder, de uma arte, de uma ciência, da maternidade ou a de um sistema político-social. É provável que um louco religioso se tornasse um louco espírita, se o Espiritismo fosse sua preocupação dominante, como um louco espírita o teria sido sob uma outra forma, segundo as circunstâncias.
Digo, portanto, que o Espiritismo não tem nenhum privilégio nessa relação; e digo mais, afirmo que, se bem compreendido, o Espiritismo é uma defesa contra a loucura.
Entre as causas mais comuns de superexcitação cerebral, ou seja, do desequilíbrio mental, estão as decepções, as infelicidades, as afeições contrariadas, que são, ao mesmo tempo, as causas mais freqüentes de suicídio. Assim é que o verdadeiro espírita vê as coisas deste mundo de um ponto de vista mais elevado; elas lhe parecem tão pequenas, tão mesquinhas, diante do futuro que o espera; a vida é para ele tão curta, tão passageira, que as tribulações são, a seus olhos, apenas incidentes desagradáveis de uma viagem. O que em qualquer outro produziria uma violenta emoção pouco o afeta; sabe, além de tudo, que os desgostos da vida são provas que servem para
o seu adiantamento, se as suporta sem lamentar, porque será recompensado segundo a coragem com que as tiver suportado. Suas convicções lhe dão uma resignação que o protege do desespero e, por conseqüência, de uma causa freqüente de loucura e suicídio. Ele sabe, por outro lado, por observar as comunicações com os Espíritos, o destino dos que encurtaram voluntariamente seus dias, e esse quadro é muito sério para fazê-lo refletir; também o número de pessoas que por causa disso se detiveram sobre essa inclinação fatal é considerável. Esse é um dos resultados do Espiritismo. Que os incrédulos riam dele quanto quiserem. Desejo-lhes as consolações que ele proporciona a todos que se dão ao trabalho de sondar-lhe as misteriosas profundezas.
Ao número das causas de loucura é preciso ainda adicionar o dos temores, e entre estes o medo do diabo, que provocou o desequilíbrio de mais de um cérebro. Sabe-se lá o número de vítimas que se fez ao amedrontar as fracas imaginações com esse quadro que se procura tornar sempre mais pavoroso com terríveis detalhes? O diabo que, dizem, apenas mete medo às criancinhas, é um freio para torná-las ajuizadas, como o bicho-papão e o lobisomem. Contudo, quando não têm mais medo deles, tornam-se piores; e esse belo resultado não é levado em conta no número das epilepsias25 causadas pelo abalo em cérebros delicados. A religião seria bem fraca se não gerasse medo, sua força correria risco, seria abalada. Felizmente não é assim, há outros meios de ação sobre as almas; o Espiritismo lhe aponta os mais eficazes e os mais sérios, se souber usá-los com proveito; mostra a realidade das coisas e com isso neutraliza os efeitos desastrosos de um temor exagerado.
Livro dos Espíritos Introdução XV
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6ª A subjugação corporal, levada a certo grau, poderá ter como conseqüência a loucura?
"Pode, a uma espécie de loucura cuja causa o mundo desconhece, mas que não tem relação alguma com a loucura ordinária. Entre os que são tidos por loucos, muitos há que apenas são subjugados; precisariam de um tratamento moral, enquanto que com os tratamentos corporais os tornamos verdadeiros loucos. Quando os médicos conhecerem bem o Espiritismo, saberão fazer essa distinção e curarão mais doentes do que com as duchas." (N. 221.)
O Livro dos Médiuns, cap. 23, item 254, sexta pergunta
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Epidemia Demoníaca na Sabóia
Algum tempo atrás os jornais falaram de uma
monomania epidêmica que se manifestou numa parte da Alta
Sabóia e contra a qual falharam todos os socorros da medicina e da religião. O único meio que produziu resultados mais ou menos satisfatórios foi a dispersão dos indivíduos em diferentes cidades. A respeito, recebemos do capitão B..., membro da Sociedade Espíritade Paris, atualmente em Annecy, a seguinte carta:
“Annecy, 7 de março de 1862.
“Senhor Presidente,
“Querendo ser útil à Sociedade, tenho a honra de vos
remeter uma brochura que me foi enviada por um de meus amigos, o Dr. Caille, encarregado pelo Ministro de acompanhar o inquérito feito pelo Sr. Constant, inspetor das casas de alienados sobre os casos muito numerosos de demonomania, observados na comuna de Morzine, distrito de Thonon (Haute-Savoie). Até hoje, esta infeliz população se acha sob a influência da obsessão, apesar dos exorcismos, dos tratamentos médicos, das medidas tomadas pelas autoridades e dos internamentos nos hospitais do Departamento.Os casos diminuíram um pouco mas não cessaram, permanecendo o mal, por assim dizer, em estado latente. Querendo exorcizar esses infelizes, na maioria crianças, o cura mandou trazê-las à igreja, conduzidas por homens vigorosos. Mal havia pronunciado as primeiras palavras latinas, produziu-se uma cena horrorosa: gritos, saltos furiosos, convulsões, etc., a tal ponto que mandaram buscar os soldados e uma companhia de infantaria para restabelecer aordem.
“Não consegui obter todas as informações que gostaria
de poder vos dar hoje, mas os fatos me parecem bastante graves para merecerem vosso exame. O Dr. Arthaud, de Lyon, médico alienista, leu o relatório da Sociedade médica desta cidade, o qual foi publicado pela Gazette médicale de Lyon e que podereis obter através de vosso correspondente. No hospital desta cidade temos duas mulheres de Morzine que estão em tratamento. O Dr. Caille concluiu por uma afecção nervosa epidêmica, que escapa a toda espécie de tratamento e de exorcismo. Só o isolamento produziu bons resultados. Durante as crises, todos esses infelizes obsedados pronunciam palavras obscenas; dão saltos prodigiosos por cima das mesas, trepam em árvores, nos telhados e, às vezes, profetizam.
“Se esses fatos se apresentaram nos séculos dezesseis e dezessete, nos conventos e nos campos, não é menos certo que no nosso século dezenove eles oferecem, a nós, espíritas, um assunto de estudo, do ponto de vista da obsessão epidêmica, generalizandose e persistindo durante anos, pois há cerca de cinco anos que o primeiro caso foi observado.
“Terei a honra de vos enviar todos os documentos e informações que puder obter.
“Aceitai, etc.
B...”
As duas comunicações que se seguem nos foram dadas sobre o assunto, na Sociedade Espírita de Paris, por nossos Espíritos habituais.
“Não são médicos, mas magnetizadores, espiritualistas ou espíritas que deveriam ser mandados para dissipar a legião de Espíritos malvados, extraviados no vosso planeta. Digo extraviados porque eles apenas passarão. Mas por muito tempo ainda, a infeliz população sofrerá do ponto de vista moral e físico. Onde está o remédio? perguntais. Surgirá do mal, porque os homens, aterrorizados por essas manifestações, acolherão com êxtase o contato benéfico dos Espíritos bons que os sucederão, como a aurora sucede à noite. Essa pobre população, ignorante de qualquer trabalho intelectual, teria desconhecido as comunicações inteligentes dos Espíritos ou, antes, nem mesmo as teria percebido. A iniciação e os males provocados por essa turba impura abrem olhos fechados, e as desordens, os atos de demência não passam de um prelúdio de iniciação, porquanto todos devem participar da grande luz espírita. Não vos escandalizeis por essa maneira cruel de proceder: tudo tem um fim e os sofrimentos devem fecundar, como fazem as tempestades, que destroem a colheita de uma região, enquanto fertilizam outras.
Georges (Médium: Sra. Costel)
“Os casos de demonomania que agora ocorrem na Sabóia também já ocorreram em muitos outros países, notadamente na Alemanha, mas principalmente no Oriente. Esse fato anormal é mais característico do que pensais. Com efeito, ao observador atento revela uma situação análoga à que se manifestou nos derradeiros anos do paganismo. Ninguém ignora que quando o Cristo, nosso muito amado Mestre, encarnou na Judéia, sob os traços do carpinteiro Jesus, aquela região havia sido invadida por legiões de Espíritos malévolos que, como hoje, se apoderaram, pela possessão, das classes sociais mais ignorantes, dos Espíritos encarnados mais fracos e menos adiantados, numa palavra, dos indivíduos que guardavam os rebanhos ou vagavam nas ocupações da vida rural. Não percebeis uma grande analogia entre a reprodução desses fenômenos idênticos de possessão? Ah! Nisso existe um ensinamento muito profundo! e disso deveis concluir que os tempos preditos se aproximam cada vez mais e que o Filho do Homem em breve virá expulsar novamente essa turba de Espíritos impuros que se abateram sobre a Terra, e reavivar a fé cristã, dando a sua alta e divina sanção às revelações consoladoras e aos ensinamentos regeneradores do Espiritismo. Voltando aos casos atuais de demonomania, é preciso lembrar que os sábios, que os médicos do século de Augusto trataram, conforme os processos hipocráticos, os infelizes possessos da Palestina, e que toda a sua ciência se aniquilou ante esse poder desconhecido. Pois bem! Ainda hoje todos os vossos inspetores de epidemias, todos os vossos mais distintos alienistas, sábios doutores em materialismo puro, fracassam do mesmo modo ante essa doença exclusivamente moral, diante dessa epidemia puramente espiritual. Mas que importa, meus amigos! vós, que fostes tocados pela graça nova, sabeis quanto esses males passageiros são curáveis pelos que têm fé. Esperai, pois, com confiança, a vinda daquele que já resgatou a Humanidade. A hora se aproxima; o Espírito precursor já está encarnado. Logo veremos o desenvolvimento completo desta doutrina, que tomou por divisa: “Fora da caridade não há salvação.”
Erasto (Médium: Sr. d’Ambel)
Devemos concluir, do que precede, que não se trata de uma afecção orgânica, mas, sim, de uma influência oculta. Custa-nos tanto menos crer, quanto temos tido numerosos casos idênticos isolados, devidos à mesma causa; e o que o prova é que os meios ensinados pelo Espiritismo foram suficientes para fazer cessar a obsessão. Está demonstrado pela experiência que os Espíritos mal-intencionados não só agem sobre o pensamento, mas, também, sobre o corpo, com o qual se identificam e do qual se servem como se fosse o seu; que provocam atos ridículos, gritos, movimentos desordenados que apresentam todas as aparências da loucura ou da monomania. Encontrar-se-á sua explicação em o nosso O Livro dos Médiuns, no capítulo da obsessão, e num próximo artigo citaremos vários fatos que o demonstram de maneira incontestável. Com efeito, é bem uma espécie de loucura, uma vez que se pode dar este nome a todo estado anormal, em que o Espírito não age livremente. Deste ponto de vista, é uma verdadeira loucura acidental.
Faz-se, pois, necessário distinguir a loucura patológica daloucura obsessiva. A primeira resulta de uma desordem nos órgãos damanifestação do pensamento. Notemos que, nesse estado de coisas, não é o Espírito que é louco; ele conserva a plenitude de suas faculdades, como o demonstra a observação; apenas estando desorganizado o instrumento de que se serve para manifestar-se, o pensamento, ou, melhor dizendo, a expressão do pensamento é incoerente.
Na loucura obsessiva não há lesão orgânica; é o próprio Espírito que se acha afetado pela subjugação de um Espírito estranho, que o domina e subjuga. No primeiro caso, deve-se tentar curar o órgão enfermo; no segundo basta livrar o Espírito doente do hóspede importuno, a fim de lhe restituir a liberdade. Casos semelhantes são muito freqüentes e muitas vezes tomados como loucura o que não passa de obsessão, para a qual deveriam empregar meios morais e não duchas. Pelo tratamento físico e, sobretudo, pelo contato com os verdadeiros alienados, muitas vezes tem sido determinada uma verdadeira loucura onde esta não existia.
Abrindo novos horizontes a todas as ciências, o Espiritismo vem, também, elucidar a questão tão obscura das doenças mentais, ao assinalar-lhes uma causa que, até hoje, não havia sido levada em consideração – causa real, evidente, provada pela experiência e cuja verdade mais tarde será reconhecida. Mas como fazer que tal causa seja admitida por aqueles que estão sempre dispostos a enviar ao hospício quem quer que tenha a fraqueza de crer que temos uma alma e que esta desempenha um papel nas funções vitais, sobrevive ao corpo e pode atuar sobre os vivos? Graças a Deus, e para o bem da Humanidade, as idéias espíritas fazem mais progresso entre os médicos do que se podia esperar e tudo faz prever que, num futuro não muito remoto, a Medicina saia finalmente da rotina materialista. Estando provados alguns casos isolados de obsessão física ou de subjugação, fácil é compreender que, semelhante a uma nuvem de gafanhotos, um bando de Espíritos malfazejos pode lançar-se sobre um certo número de indivíduos, deles se apoderar e produzir uma espécie de epidemia moral. A ignorância, a fraqueza das faculdades, a ausência de cultura intelectual naturalmente lhes facultam maior influência. É por isso que eles prejudicam, de preferência, certas classes, embora as pessoas inteligentes e instruídas nem sempre estejam isentas. Como diz Erasto, foi provavelmente uma epidemia desse gênero que imperou no tempo do Cristo, tantas vezes mencionada no Evangelho. Mas por que só a sua palavra bastava para expulsar os chamados demônios? Isto prova que o mal não podia ser curado senão por uma influência moral. Ora, quem pode negar a influência moral do Cristo?
Entretanto – dirão – não empregaram o exorcismo, que é uma espécie de remédio moral, e nada foi obtido? Se nada produziu é que o remédio nada vale e que se deve buscar outro: isto é evidente.
Estudai o Espiritismo e compreendereis a razão. Somente o Espiritismo, assinalando a verdadeira causa do mal, pode dar os meios de combater os flagelos dessa natureza. Mas quando
dizemos para estudá-lo, entendemos por isto um estudo sério, e não na esperança de nele encontrar uma receita banal, para uso do primeiro que aparecer.
O que acontece na Sabóia, chamando a atenção, possivelmente apressará o momento em que será reconhecida a parte de ação do mundo invisível nos fenômenos da Natureza.
Uma vez entrando neste caminho, a Ciência possuirá a chave de muitos mistérios e verá cair a mais formidável barreira que detém o progresso: o materialismo, que restringe o círculo da observação, em vez de o ampliar.
Revista Espírita Abril, 1862, item: Epidemia Demoníaca na Sabóia
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COMPANHEIROS DE EXPERIÊNCIA
Tema – Espíritos Obsessores
Às vezes, pronunciamos a palavra “obsessores” qual se o conceito designasse uma
raça de criaturas diferentes; e alinhamos epítetos que nos definam assombro e
repugnância, como sejam: “demônios desencarnados”, “gênios infernais”, “Espíritos
perversos”...
Sem dúvida, em sã consciência, ninguém se afina com o mal, como ninguém se
harmoniza com a doença. Se providenciamos, no entanto, socorro adequado aos
enfermos do corpo, a que título relegar a regime de absoluta condenação aqueles irmãos
nossos que se marginalizam, do ponto de vista espiritual, em precipícios de trevas?
Certo, pessoa alguma se lembrará de pedir um prêmio a fim de laurear os que
delinqüiram, mas é preciso considerar que são eles seres humanos, quanto nós mesmos,
aguardando remédio e proteção para que se levantem, de novo, à altura da Humanidade.
Por mais endividado, ou inferir nasça um Espírito em campo terrestre, as leis de
Deus jamais o abandonam e selam-lhe o berço com a presença do amor, a começar pela
ternura do coração materno, capaz de auxiliá-lo até às últimas raias do sacrifício. E
Espírito algum, por mais detestado ou ignorante, na estância física, pelas mesmas leis de
Deus não voltará ao Mundo Espiritual sem a dedicação de alguém que o ame.
Os chamados “protetores” e “guardiães” não transitam apenas entre os lares
humanos, sustentando os homens para que não resvalem de todo nos abismos do erro;
velam, igualmente, nos despenhadeiros da sombra, insuflando esperança e consolação
naqueles irmãos que despertaram, além da morte, entre cáusticos de remorso e crises de
loucura, resultantes das faltas e transgressões a que se afizeram, no curso do estágio
físico.
Impossível desconhecer as dificuldades e problemas a que estamos sujeitos pela
influência dos nossos companheiros apresados nas teias de revolta e desequilíbrio;
entretanto, se a Bondade do Senhor no-los encaminha, é que partilhamos com eles o
mesmo quinhão de débito a resgatar ou de serviço a desenvolver; se nos trazem
sensações de tristeza ou de angústia, é que ainda temos os corações, quais os deles,
arraigados à sombra de espírito.
Recebamo-los na trilha do respeito, quando não nos seja possível acolhê-los no portal da
alegria. E comecemos a obra do reajuste, acendendo no íntimo a chama da prece; ela clareará
nossas almas e interpretá-los-emos tais quais são: nosso companheiros de caminhada e
obreiros indispensáveis da vida.
Encontro Marcado- Emmanuel
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16
Alienados Mentais
Antes de visitarmos as cavernas de sofrimento, Calderaro instou-me a faser
com ele rápida visita a grande instituto Consagrado ao recolhimento de
alienados mentais, na Esfera da Crosta.
— Compreenderás, então, mais exatamente —explicou, generoso,
dirigindo-se a mim com a delicadeza que lhe é peculiar — a tragédia dos
homens desencarnados, em pleno desequilíbrio das sensações. Excetuados os
casos puramente orgânicos, o louco é alguém que procurou forçar a libertação
do aprendizado terrestre, por indisciplina ou ignorância. Temos neste domínio
um gênero de suicídio habilmente dissimulado, a auto-eliminação da harmonia
mental, pela inconformação da alma nos quadros de luta que a existência
humana apresenta. Diante da dor, do obstáculo ou da morte, milhares de
pessoas capitulam, entregando-se, sem resistência, à perturbação destruidora,
que lhes abre, por fim, as portas do túmulo. A princípio, são meros
descontentes e desesperados, que passam despercebidos mesmo àqueles que
os acompanham de mais perto. Pouco a pouco, no entanto, transformam-se
em doentes mentais de variadas gradações, de cura quase impossível,
portadores que são de problemas inextricáveis e ingratos. Imperceptíveis frutos
da desobediência começam por arruinar o patrimônio fisiológico que lhes foi
confiado na Crosta da Terra, e acabam empobrecidos e infortunados. Aflitos e
semimortos, são eles homens e mulheres que desde os círculos terrenos
padecem, encovados em precipícios infernais, por se haverem rebelado aos
desígnios divinos, preterindo-os, na escola benéfica da luta aperfeiçoadora,
pelos caprichos insensatos.
Guardando carinhosamente a observação, acompanhei-o na excursão
matinal ao grande estabelecimento, onde os mentecaptos eram em grande
número
No primeiro pátio que topamos, compacta era a quantidade de mulheres
desequilibradas que palestravam.
Uma velha de cabelos nevados, mostrando acerba ferocidade no olhar,
envergava o uniforme da casa, como quem arrastasse um vestido real, e dizia
a duas companheiras apáticas:
— Na minha qualidade de marquesa, não tolero a intromissão de médicos
inconscientes. Creio estar presa por motivos secretos de família, que
averiguarei na primeira oportunidade. Tenho poderosos inimigos na Corte;
contudo, as minhas amizades são mais prestigiosas e fiéis.
Baixou a voz, como receando espias ocultos, e falou ao ouvido de uma das
irmãs de sofrimento:
— O Imperador está interessado em meu caso e punirá os culpados.
Segregaram-me por miseraveis questões de dinheiro.
Elevando o diapasão, inesperadamente, bradou:
— Todos pagarão! Todos pagarão!
E continuava explicando-se com gestos de grande senhora.
Compungia-me observar a promiscuidade entre as enfermas encarnadas e
as entidades infelizes, que ali se acotovelavam. Preso ainda ao meu antigo
vezo de curiosidade, tentei estacar, a fim de ouvir a demente até ao fim, mas o
Assistente deu-se pressa em considerar:
— Não nos detenhamos. Infelizmente, atraVessamos vasta galeria de
padecimento expiatório, onde nossos recursos socorristas não ofereceriam
vantagens imediatas. Aqui, quase todos os alienados são criaturas que
abdicaram a realidade, atendo-se a circunstâncias do passado sem mais razão
de ser. Essa desventurada irmã já possuiu titulos de nobreza em existência
anterior; perpetrou clamorosas faltas, dando expansão às energias cegas do
orgulho e da vaidade. Renascendo em aprendizado humilde para o
reajustamento imprescindível, alarmou-se ante as primeiras provações mais rudes da correção benfeitora, reagiu contra os resultados da própria sementeira,
entregou o invólucro físico ao curso de ocorrências nefastas; e, por fim, situouse mentalmente em zonas mais baixas da personalidade, passando a residir,
em pensamento, no pretérito de mentiras brilhantes. Agarrou-se, desesperada,
às recordações da marquesa vaidosa de salões que já desapareceram, e
perambula nos vales da demência em lastimáveis condições.
Não déramos muitos passos, encontramos novo ajuntamento, em que
sobressaía curiosa dama, extremamente nervosa.
— Deus me livre de todos, Deus me livre de todos! — gritava, inquieta. —
Não voltarei! nunca, nunca!...
Aproxima-se, cordata, a enfermeira, e pede:
— Senhora, mais calma! É seu marido que vem à visita. Vamos ao guardaroupa.
E sorrindo:
— Não se sente feliz?
— Jamais! — bradava a demente com espantoso semblante de angústia.
— Não quero vê-lo! odeio-o, odeio, com tudo o que lhe pertence!
tRepetindo expressões de desprezo, inteiriçou-se, caindo em lamentável
crise de nervos, pelo que a auxiliar da enfermagem houve que requisitar socorro urgente.
Desejei reter-me, a fim de estudar a situação, mas o Assistente impediume, esclarecendo:
— Não percas tempo. Não remediarias o mal. Nossa passagem aqui é
rápida. RecomendO apenas anotes o refúgio de todos os que se esquecem
dos deveres presentes, pretendendo escapar aos imperativos da realidade
educadOra.
Modificou a inflexão da voz e prosseguiu:
— Não asseguramos que todos os casos do hospício se relacionem
exclusivamente com esse fator. Muita gente atravessa este paVorosO túnel,
premida por exigências da prova retificadora; é, no entanto, forçoso reconhecer
que a maioria encetoU o pungitivo drama em si mesma. São irmãos nossos,
revoltados ante os desígnios superiores que os conduzirem a recapitular
ensinamentos difíceis, qual o de se reaproximarem de velhos inimigos por
intermédio de laços consangüíneos ou o de enfrentarem obstáculos
aparentemente insuperáveis.
“Para que se efetue a jornada iluminativa do espírito é indispensável
deslocar a mente, revolver as idéias, renovar as concepções e modificar, invariavelmente, para o bem maior o modo IntimO de ser, tal qual procedemoS com
o solo na revivificação da lavoura produtiva OU com qualquer instituto humano
em reestruturação para o progreSSO geral. NegandO-Se, porém, a alma a
receber o auxilio divinO, através dos processos de transformação incessante
que lhe são oferecidos, em seu benefício próprios pelas diferentes situações de
que os dias se compõem no aprendizado carnal, recolhe-se á margem da
estrada, criando paisagens perturbadoras com desejos injustificáveis.
Quase podemos afirmar que noventa em cem dos casos de loucura,
excetuados aqueles que se originam da incursãO microbiana sobre a matéria
cinzenta, começam nas conseqüências das faltas graves que praticamos, com
a impaciência ou com a tristeza, isto é, por intermédio de atitudes mentais que
imprimem deploráveis reflexos ao caminho daqueles que as acolhem e
alimentam. instaladas essas forças desequilibrantes no campo íntimo, inicia-se
a desintegração da harmonia mental: esta por vezes perdura, não só numa
existência, mas em várias delas, até que o interessado se disponha, com
fidelidade, a valer-se das bênçãos divinas que o aljofram, para restabelecer a
tranqüilidade e a capacidade de renovação que lhe são inerentes à
individualidade, em abençoado serviço evolutivo. Pela rebeldia, a alma
responsável pode encaminhar-se para muitos crimes, a cujos resultados
nefastos se cativa indefinidamente; e, pelo desânimo, é propensa a cair nos
despenhadeiros da inércia, com fatal atraso nas edificações que lhe cabe
providenciar.
Nesse ponto dos esclarecimentos, penetrávamos extensa varanda no
departamento masculino e logo se nos deparou um homem que decerto se
enquadrava entre os esquizofrênicos absolutos. Rodeavam-no algumas
entidades de sombrio aspecto. Semelhava-se o doente a perfeito autômato,
sob o guante de tais companheiros. Exibia gestos maquinais, e, ao guarda que
se aproximava, cauteloso, explicou em tom muito sério:
— Venha, “seus João. Não tenha receio. Ontem eu era o “leão”, mas hoje,
sabe o senhor o que eu sou?
Ante o enfermeiro hesitante, concluiu:
— Hoje sou a “bananeira”.
Encontraria, eu, sem dúvida, no caso, excelente ensejo de enriquecer
experiências, porqüanto de pronto reconhecera a entrosagem completa entre a
vitima e os obsessores que lhe eram invisíveis. O desditoso era rematado
fantoche nas mãos dos algozes tipicamente perversos.
Calderaro, porém, não me permitiu interromper a marcha.
— O processo de desequilíbrio está consumado — informou —, e não
encontrarias possibilidade de recompor-lhe, em serviçO rápido, as energias
mentais centralizadas na região inferior. O infeliz vem sendo objeto de práticas
hipnóticas de implacáveis perseguidores; acha-se exposto a emissões
contínuas de forças que o deprimem e enlouquecem.
— Céus! — exclamei, aparvalhado — como socorrê-lo?
— Trata-se de um homem — acrescentou o orientador — que em
encarnações anteriores abusou do magnetismo pessoal.
Não pude sopitar a objeção que me nasceu espontânea:
— Como? as ciências magnéticas são de ontem...
Calderaro estampou no olhar a condescendência que lhe é característica e
retorquiu:
— Acreditas que teriam sido iniciadas com Mesmer?
E, sorridente, ajuntou:
— Se consideráramos o sentido literal do texto, o abuso de magnetiSmo
pessoal teria começado com Eva, no paraíso...
Indicou o enfermo e prosseguiu:
— Em pretérito não muito remoto, nosso imprevidente amigo se excedeu em
seu potencial de fascínio, desviando-o para aventuras menos dignas. Várias
mulheres que lhe sofreram a ação corrosiva, assestaram contra ele
incessantes explosões de ódio doentio e corruptor, extravasamentos que o
pobre companheiro merecia em conseqüência da atividade condenável a que
se dedicou por muitos anos. Minado pela reação persisttente, minguou-lhe o
cabedal de resistência; converteu-se, destarte, em joguete das forças
destrutivas, às quais, a bem dizer, voluntariamente se unira, ao abraçar, entusiasta, a declarada prática do mal. Até quando se demorará em tal atitude, não
será possível prever. Geralmente, ao delinqüirmos, podemos precisar o
instante exato de nossa penetração na desarmonia; jamais sabemos, porém,
quando soará o momento de abandoná-la. No retorno à estrada reta, através
de atoleiros em que chafurdamos, por indiferença e má fé, não podemos
prefixar calendários para a volta: implicamo-nos em jogos circunstanciais, de
que só nos despeamos após doloroso reajustamento...
Observando-me a admiração, ante a experiência hipnótica que os frios
verdugos levavam a efeito, o Assistente considerou:
— Não te impressiones. A morte física não modifica de súbito as
inteligências votadas ao mal, nem o duelo da luz com a sombra se adstringe
aos estreitos círculos carnais.
Logo após, éramos surpreendidos por dois velhinhos atoleimados, a
pronunciar frases desconexas.
— O tempo — elucidou o orientador, indicando-os — acaba sempre por
denunciar a nossa posição verdadeira. Quando a criatura não haja feito da
existência o sacerdócio de trabalho construtivo, que nos cumpre na Terra, os
fenômenos senis do corpo são mais tristes para a alma, pois, neste caso, o
indivíduo já não domina as conveniências forjadas pelo imediatismo humano,
patenteando-se-lhe a fixação da mente nos impulsos inferiores. Milhões de
irmãos nossos permanecem, séculos afora, na fase infantil do entendimento,
por não se animarem ao esforço de melhoria própria. Enquanto recebem a
transitória cooperação de saúde física relativa, das convenções terrenas, das
possibilidades financeiras e das variadas impressões passageiras que a
existência na Crosta Planetária oferece aos que passam pela carne, esteiamse nos títulos de cidadãos que a sociedade lhes confere; logo, porém, que
visitados pelo morbo, pela escassez de recursos ou pela decrepitude, revelam
a infância espiritual em que jazem: voltam a ser crianças, não obstante a idade
provecta manifestada pelo veículo de ossos, por se haverem excessivamente
demorado nos sítios superficiais da vida.
A exposição não podia ser mais lógica; todavia, examinando aquele vasto
ambiente, onde tantos loucos de ambos os sexos modorravam distantes do
realismo do mundo, sem a mais leve perspectiva de desencarnação próxima,
pensei nas criaturas que já renascem imperfeitas e perturbadas; nas crianças
atrasadas e nos moços em luta com a demência juvenil; nas fobias sem
número que amofinam pessoas respeitáveis e prestativas, e solicitei, então, do
instrutor esclarecimentos sobre os quadros de sofrimento desse jaez, que de
improviso assaltam os ambientes domésticos mais distintos.
O Assistente não se surpreendeu, e observou:
— Estudamos aqui, André, a messe das sementeiras, assim do presente,
como do passado. Ponderamos não só a aprendizagem de uma existência
efêmera, mas também a romagem da alma nos caminhos infinitos da vida, da
vida imperecível que segue sempre, vencendo as imposições e as injunções da
forma, purificando-se e santificando-se cada dia. Verificarás, conosco, afligente
quadro de padecimentos espirituais, e é provável que apreendas, num hospício
humano, algo dos desequilíbrios que afetam a mente desviada das Leis
Universais. Em verdade, na alienação mental começa a «descida da alma às
zonas inferiores da morte». Através do manicômio é possível entender, de
certo modo, a loucura dos homens e das mulheres que, aparentemente
equilibrados no campo social da Crosta Terrestre, onde permutam os eternos
valores divinos por satisfações ilusórias imediatas, são relegados depois, além
do sepulcro, a inominável desespero do sentimento. Quanto às perturbações
que acompanham a alma no renascimento ou na infância do corpo, na
juventude ou na senilidade, é mister reconhecer que o desequilíbrio começa na
inobservância da Lei, como a expiação se inicia no crime. Adotada a conduta
em desacordo com a realidade, encontra o espírito, invariavelmente, em todos
os círculos onde se veja, os efeitos da própria ação. Seja nos mecanismos da
hereditariedade fisiológica, seja fora de sua influência, a mente, encarnada ou
não, revela-se na colheita do que haja semeado, no campo de evolução do
esforço comum, no monte da elevação pela prática do sumo bem, ou no vale
expiatório pelo exercício do mal.
O Assistente, que se dispunha a retirar-se, fitou-me demoradamente, e
rematou:
- O louco, em geral, considerando-se não só o presente, senão até o
passado longínquo, é alguém que aborreceu as bênçãos da experiência
humana, preferindo segregar-se nos caprichos mentais; e a entidade espiritual
atormentada após a morte é sempre alguém que deliberadamente fugiu às
realidades da Vida e do Universo, criando regiões purgatórias para si mesmo.
Compreendeste?
Fixei o instrutor, reconhecidamente.
Sim, havia entendido. E, ponderando a lição da manhã, segui o orientador,
que silente abandonava o campo de observação, a fim de mais tarde nos
avistarmos com os benfeitores que visitariam as cavernas, em missão de amor
e de paz.
No Mundo Maior- André Luiz
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Obsessão e Cura
Reunião pública de 30/9/60
Questão nº 254 - Parágrafo 5º
Alguém, certa feita, Indagou de grande filósofo como classificaria o sábio e
o Ignorante, e o filósofo respondeu afirmando que considerava um e outro
como sendo o médico e o doente.
No entanto, acrescentamos nós: entre o médico e o doente existe o
remédio.
Se o enfermo guarda a receita no bolso e foge à instrução indicada, não
adianta o esforço do clínico ou do cirurgião que despendem estudo e tempo
para servi-lo.
*
Que a obsessão é moléstia da alma, não há negar.
A criatura desvalida de conhecimento superior rende-se, inerme, à
influência aviltante, como a planta sem defesa se deIxa Invadir pela praga
destruidora, e surgem os dolorosos enigmas orgânlcos que, muitas vezes,
culminam com a morte.
Dispomos, contudo, na Doutrina Espírita, à luz dos ensinamentos do
Cristo, de verdadeira ciência curativa da alma, com recursos próprios à solução
de cada processo morboso da mente, removendo o obsessor do obsidiado,
como o agente químico ou a intervenção operatória suprimem a enfermidade
no enfermo, desde que os interessados se submetam aos impositivos do
tratamento.
*
Se conduzes o problema da obsessão com lucidez bastante para
compreender as próprias necessidades, não desconheces que a renovação da
companhia espiritual inferior, a que te ajustas, depende de tua própria
renovação.
Ouvirás preleções nobres, situando-te os rumos.
Recolherás, daqui e dali, conselhos justos e precisos. Encontrarás, em
suma, nos princípios espíritas, apontamento certo e exata orientação.
Entretanto, como no caso da receita formulada por médico abnegado e
culto, em teu favor, a lição do Evangelho consola e esclarece, encoraja e
honra aqueles que a recebem, mas, se não for usada, não adianta.