sábado, 3 de dezembro de 2011

Encontro de Natal

Recolhes as melodias do Natal, guardando o pensamento engrinaldado pela ternura de harmoniosa canção.
Percebes que o céu te chama a partilhar os júbilos da exaltação do Senhor nas sombras do mundo.
Entretanto, misturada ao regozijo que te acalenta a esperança, carregas a névoa sutil de recôndita angústia, como se trouxesses no peito um canteiro de rosas orvalhado de lágrimas!...
É que retratas no espelho da própria emoção o infortúnio de tantos outros companheiros que foram inutilmente convidados para a consagração da alegria. Levantaste no lar a árvore da ventura doméstica, de cujos galhos pendem os frutos do carinho perfeito, entretanto, não longe, cambaleiam seguidores de Jesus, suspirando por leve proteção que os resguarde contra o frio da noite; banqueteias-te, sob guirlandas festivas, mas, a poucos passos da própria casa, mães e crianças desprotegidas, aguardando o socorro de Cristo, enlanguecem de fadiga, e necessidade; repetes hinos comovedores, tocados pela serena beleza que dimana dos astros, entretanto, nas vizinhança, cooperadores humildes do Mestre, choram cansados de penúria e aflição; abraças os entes queridos, desfrutando excesso de conforto, contudo, à pequena distância, esmorecem amigos de Jesus, implorando que Ihes dê a benção de uma prece e o consolo de uma palavra afetuosa, nas grades dos manicômios ou no leito dos hospitais...
Sim, quando refletes na glória da Manjedoura, sentes, em verdade, a presença do Cristo no coração!
Louva as doações divinas que te felicitam a existência, mas não te esqueças de que o Natal é o Céu que se reparte com a Terra, através do eterno amor que se derramou das estrelas.
Agradece o dom inefável da paz que volta, de novo, enriquecendo-te a vida, mas divide a própria felicidade, realizando, em nome do Senhor, a alegria de alguém!...

Xavier, Francisco Cândido. Da obra: Espírito da Verdade. Ditado pelo Espírito Meimei. FEB.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Deus Espera que Ames



Se tiveres um pouco de atenção e olhares em torno de ti, encontrarás os variados meneios da vida que se reportam ao amor do nosso Criador, em cada movimento.

Em toda parte a natureza está sempre oferecendo um pouco mais à vida, em homenagem ao Grande Pai, enquanto também se enriquece de luz, de cores e de harmonia.

Se de longe vires um canteiro, onde medram flores, alcançarás somente os matizes multicores das corolas; porém, se te aproximares sentirás que, quando beijadas pela brisa, as flores exalam benfazejos perfumes, dando um pouco mais em prol da beleza terrena.

Se olhares a exuberante queda d’água, que despenca da montanha, observarás apenas um soberbo espetáculo de força e vigor. Mas, se te acercares dessa catadupa, verás um risonho arco-íris que se desenha sobre as gotículas suspensas no ar, a fim de que, ao refletir os matizes da luz, possa ofertar um pouco mais em favor da beleza planetária.

Contemplas, ao longe, a neve que inspira friagem e desolação, na branca vastidão do inverno. Se, entanto, chegares mais perto, identificarás as miríades de cristais de formosíssimas estruturas, a refletir os raios do Sol, como pequenos brilhantes pingentes em qualquer lugar, no anseio de cooperar um pouco mais no embelezamento do mundo.

Se olhares o velho tronco de árvore, apodrecido pelo tempo e abandonado, terás à frente dos olhos tão-só um poleiro inusitado de múltiplas aves, no rumo de uma antiga cerca. Entretanto, se te avizinhares, registrarás o ninho aconchegante e bem arranjado que se abriga no oco vetusto, onde os filhotes piam, ensaiando o canto do futuro, a fim de tornar mais belas as paisagens terrestres.

Se, por entre ameaçadores zumbidos, o enxame de abelhas que se agita te deixa temeroso, não consegues te dar conta do que ocorre, de fato. Ao te aproximares, entretanto, encontrarás uma sociedade organizada, com os trabalhos devidamente distribuídos, sob instintivas ordem e obediência, gerando variados produtos para si mesma e para quem mais os possa utilizar, homens e animais, de modo a dar um pouco mais para a formosura do mundo.

Enfim, para onde te voltes, perceberás sempre o louvor que se estabelece em a natureza, dirigido ao nosso Deus.

Procura viver de tal maneira, coração amigo, que possas desmentir qualquer um que, por ver-te de longe, admita que és tão-só alguém à cata de atender às necessidades imediatas, que ajudam a manter o corpo, a espécie e as propriedades que adquiriste com esforços. Todavia, se já sabes o porquê de estares no mundo e o que te trouxe ao corpo carnal, novamente, saberás expressar, para quem se aproxime de ti, o anjo potencializado que és, por enquanto engolfado em árduas lutas humanas por brilhar e crescer, no rumo do Criador, de modo a dar beleza à vida que pulsa na Terra.

Deus quer que ames e que ofereças um pouco mais de ti à vida. Não te afugentes desse destino; não te negues a atender a esse anseio do nosso Pai Celestial. Vem, levanta-te e move-te para incrementar uma vida nova para ti; busca aprender sempre mais, a fim de mais te libertares das cadeias da ignorância; trabalha com afinco e alegria, para te tornares afinado instrumento nas mãos do Senhor, e ama, por fim, porque foste feito a Sua semelhança, e porque não deves mais deter o vôo que te fará alcançar o teu próprio destino, destino de felicidade cujos fundamentos se acham no pulsar das constelações.


Rosângela C. Lima/Raul Teixeira

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Vida e Valores (Débitos e créditos)

O empresário Gordon Gould teve ensejo de expressar-se dizendo que, para ele, uma das coisas mais importantes desses tempos do mundo é a contabilidade de débitos e créditos. E ele alinhava uma série de razões para justificar o seu entendimento.


Vale lembrar que essa contabilidade de débitos e créditos nasceu no Século XV, mais propriamente em 1494 e foi criada por um monge franciscano chamado Luca Pacioli.
Esse monge franciscano criou essa metodologia exatamente para auxiliar aos mercadores, aos comerciantes, negociantes de Veneza que precisavam gerenciar suas economias crescentes.
Precisavam administrar seu dinheiro de uma forma eficiente e encontraram, no trabalho do monge franciscano Luca Pacioli, um elemento importantíssimo para que eles pudessem analisar perdas, ganhos, no bojo das suas realizações.
A partir daí, a Humanidade tem experimentado muito sucesso ao fazer uso dessa contabilidade: débito - crédito.
Isso entrou de tal modo na vida das comunidades do mundo inteiro que hoje faz parte dos cursos de contabilidade, de economia, de administração e usamos essa maneira de pensar, essa metodologia de lidar com valores, no nosso cotidiano.
Falamos em outros contextos a respeito de débito e crédito, em termos morais: Você tem débito comigo. Eu tenho crédito com você. Você tem créditos para comigo. Eu tenho débitos para com você.
A partir disso, a ideia de Luca Pacioli espalhou-se pelo mundo e é tão importante verificarmos que todos nós, de uma maneira ou de outra, teremos o nosso tempo de prestar contas do que estamos fazendo da nossa existência.
Não foi à toa que Jesus Cristo, um dia, exprimiu-Se dizendo que o administrador daria conta da sua administração.
Quando pensamos em administração, não é apenas a administração de negócios, de dinheiro mas, nesse sentido amplo, é a administração de nossa vida e, se não sabemos bem administrá-la, certamente contrairemos débitos.
Se conseguirmos bem administrar nossa vida, teremos os créditos decorrentes de nosso juízo, de nossa boa ação, da grandeza que criamos com a nossa vida na Terra.
Por isso é que nos cabe refletir, nos cabe pensar nessa dinâmica da vida de todos nós e de cada um em particular, que nos remete sempre a fazer esse balanço, entre os créditos que a Divindade nos confiou e os débitos que  contraímos, face ao mau uso ou ao desuso desses créditos Divinos.
É por isso que percebemos que cada vez que usamos mal, por exemplo, o crédito da palavra, usamos mal o nosso falar, adquirimos débitos para o futuro.
Cada vez que utilizamos mal o crédito da visão, criamos problemas para o nosso amanhã.
O crédito dos nossos pés, da nossa inteligência, das oportunidades sociais, tudo isto vai fazendo parte dos elementos de que dispomos na Terra para viver da melhor maneira.
Você sabe quantas bênçãos a vida lhe ofereceu e lhe oferece? A família, os amigos, o trabalho, a saúde, as oportunidades variadas e não se justifica que, diante de tantas oportunidades, façamos mau uso. Nada obstante, muitas vezes, em nome da nossa loucura, da nossa inconsciência, acabamos por usar mal os créditos que a Divindade nos confiou e teremos que acertar isso um dia.
*   *   *
É importantíssimo, nesse capítulo de débitos e créditos, na contabilidade criada por Pacioli, verificarmos que, um dia, o Codificador Espírita Allan Kardec perguntou aos Bons Espíritos a respeito do que poderíamos fazer para superarmos as tentações do mal e para realizarmos com proveito a nossa jornada terrestre.
Os Nobres Guias da Humanidade responderam que um velho sábio da Antiguidade já nos houvera dito: Conhece-te a ti mesmo.
Allan Kardec voltou à carga e perguntou: Entendi o sentido desse autoconhecimento. O problema está exatamente em como fazê-lo. Como poderemos realizar isto?
O Espírito Santo Agostinho respondeu: Fazei como eu fazia quando estava no mundo. Ao final de cada dia, fazia o levantamento de como eu houvera vivido, aquilo que realizara em prejuízo do próximo, em meu próprio prejuízo. Aquilo que eu tivesse feito em contraposição às Leis Divinas.
Fazia uma tomada de débitos e créditos, dizemos nós e, graças a isso, ficamos com uma fórmula, digamos assim, para realizar esse esforço pelo autoconhecimento.
Não é fácil porque quase sempre nos ocultamos de nós mesmos ou, pelo menos, tentamos fazê-lo. Ao nos ocultar de nós mesmos, vamos dando desculpas que nada desculpam para os nossos atos: Eu fiz porque Fulano me provocou, eu deixei de fazer porque Beltrano não me ajudou.
Vamos sempre empurrando para longe, jogando para fora de nós as responsabilidades que são nossas.
Na medida em que queremos nos conhecer de fato, assumimos nossas falhas e nossos acertos. Aquilo que erramos, colocamos no prato simbólico de uma balança e aquilo que acertamos colocamos no outro prato da balança.
A partir daí, teremos o estabelecimento do peso entre débito e crédito, o que nos sobrará.
Quando estamos fazendo esforços por nos conhecer, não nos envergonhamos dos erros que ainda cometemos e nem queremos fugir dos acertos que empreendemos.
Há coisas maravilhosas que já fazemos. Para que esconder isso de nós? Para que fingir que não fazemos? Mas, ainda há muita sombra nas nossas atitudes e por que tentar ocultar isso de nós?
Se carregarmos uma mazela, uma ferida e negarmos que a conduzimos, quando é que vamos tratá-la?
O mais especial é quando assumimos que levamos uma chaga aberta porque então muitos se apresentarão para ajudar nesse processo do tratamento.
Cada qual de nós diante da vida carrega as coisas boas que já fez, as coisas felizes que faz, seus créditos. O bom uso daquilo que Deus nos deu, o bom uso daquilo que Deus nos dá são créditos mas, muitas vezes, fugimos do bom tom, nos perdemos nesses labirintos de equívocos e carregamos débitos.
Não há nenhum motivo para desesperação, não há nenhum motivo para que nos percamos desfigurados de remorsos, desejando morrer. O tempo de agora é o tempo da oportunidade. Desejaremos viver para corrigir o que ficou mal pintado em nossa tela.
É o tempo de acertar, corrigindo o passo que não tenha sido bem dado em nossa vida e, graças a isso, trabalharemos no sentido de que a contabilidade Divina possa reconhecer nossos créditos e justificar os nossos débitos com as coisas boas que fazemos.
Foi o Apóstolo Simão Pedro que fechou de forma notável esse ensinamento ao nos dizer que o amor cobre multidões de pecados.
Todos nós na Terra somos Espíritos nessa faixa de provações, de expiações, com necessidades de aprender, de pagar dívidas mas com a grande oportunidade de desenvolver em nós o amor sob todos os aspectos consideráveis, porque somente o amor cobre multidões de pecados.

Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 203, apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná.
Programa gravado em agosto de 2009.
                                                                         Em 25.04.2011.
  

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Associação

          Se o homem pudesse contemplar com os próprios olhos as correntes de
pensamento, reconheceria, de pronto, que todos vivemos em regime de
comunhão, segundo os princípios da afinidade.

          A associação mora em todas as coisas, preside a todos os
acontecimentos e comanda a existência de todos os seres.

          Demócrito, o sábio grego que viveu na Terra muito antes do Cristo,
assevera que “os átomos, invisíveis ao olhar humano, agrupam-se à feição dos
pombos, à cata de comida, formando assim os corpos que conhecemos”.

         Começamos agora a penetrar a essência do microcosmo e, de alguma
sorte, podemos simbolizar, por enquanto, no átomo entregue à nossa
perquirição, um sistema solar em miniatura, no qual o  núcleo desempenha a
função de centro vital e os eletrons a de planetas em movimento gravitativo.

        No plano da Vida Maior, vemos os sóis carregando os mundos na
imensidade, em virtude da interação eletromagnética das forças universais.

        Assim também na vida comum, a alma entra em ressonância com as
correntes mentais em que respiram as almas que se lhe assemelham.
Assimilamos os pensamentos daqueles que pensam como pensamos.
É que sentindo, mentalizando, falando ou agindo, sintonizamo-nos com as
emoções e idéias de todas as pessoas, encarnadas ou desencarnadas, da
nossa faixa de simpatia.

        Estamos invariavelmente atraindo ou repelindo recursos  mentais que se
agregam aos nossos, fortificando-nos para o bem ou para o mal, segundo a
direção que escolhemos.

        Em qualquer providência e em qualquer Opinião, somos  sempre a soma
de muitos.

        Expressamos milhares de criaturas e milhares de criaturas nos
expressam.
       O desejo é a alavanca de fosso sentimento, gerando a energia que
consumimos, segundo a nossa vontade.

       Quando nos detemos nos defeitos e faltas dos outros, o espelho de nossa
mente reflete-os, de imediato, como que absorvendo as imagens deprimentes
de que se constituem, Pondo-se nossa imaginação a digerir essa espécie de
alimento, que mais tarde se incorpora aos tecidos sutis de nossa alma. Com o
decurso do tempo nossa alma não raro passa a exprimir, pelo seu veículo de
manifestação o que assimilara fazendoo seja pelo corpo carnal, entre os
homens, seja pelo corpo espiritual de que nos servimos, depois da morte.

      É por esta razão que geralmente os censores do procedimento alheio
acabam praticando as mesmas ações que condenam no próximo, porqüanto,
interessados em descer às minúcias do mal, absorvem-lhe inconscientemente
as emanações, surpreendendo-se, um dia, dominados pelas forças que o
representam.

        Toda a brecha de sombra em nossa personalidade retrata a sombra maior.
Qual o pequenino foco infeccioso que, abandonado a si mesmo, pode
converter-se dentro de algumas horas no bolo pestífero  de imensas
proporções, a maledicência pode precipitar-nos no vício, tanto quanto a cólera
sistemática nos arrasta, muita vez, aos labirintos da loucura ou às trevas do
crime.

       Pensando, conversando ou trabalhando, a força de nossas idéias, palavras
e atos alcança, de momento, um potencial tantas vezes maior quantas sejam
as pessoas encarnadas ou não que concordem conosco, potencial  esse que
tende a aumentar indefinidamente, impondo-nos, de retorno, as conseqüências
de nossas próprias iniciativas.

       Estejamos, assim, procurando incessantemente o bem, ajudando,
aprendendo, servindo, desculpando e amando, porque,  nessa atitude,
retletiremos os cultivadores da luz, resolvendo, com segurança o nosso problema de companhia.

Do livro: Pensamento e Vida, Francisco Cândido Xavier

Estudando a Mediunidade


Indubitavelmente – concordava o Assistente Áulus – a mediunidade é problema dos mais sugestivos na atualidade do mundo. Aproxima-se o homem terreno da Era do Espírito, sob a luz da Religião Cósmica do Amor e da Sabedoria e, decerto, precisa de cooperação, a fim de que se lhe habilite o entendimento.
O orientador, de feição nobre e simpática, recebera-nos, a pedido de Clarêncio, para um curso rápido de ciências mediúnicas. Especializara-se em trabalhos dessa natureza, consagrando-lhes muitos anos de abnegação. Era, por isso, dentre as relações do Ministro, que se nos fizera patrono e condutor, um dos companheiros mais competentes no assunto. Áulus nos acolhera com afabilidade e doçura.
Relacionando aflitivas questões  da Humanidade Terrestre, pousava em nós o olhar firme e lúcido, não apenas com o interesse do irmão mais velho, mas também com a afetividade de um pai enternecido.
Hilário e eu não conseguíamos disfarçar a admiração.
Era um privilégio ouvi-lo discorrer sobre o tema que nos trazia até ali.
Aliavam-se nele substanciosa riqueza cultural e o mais entranhado patrimônio de amor, causando-nos satisfação o vê-lo reportar-se às necessidades humanas, com o carinho do médico benevolente e sábio que desce à condição de enfermeiro para a alegria de ajudar e salvar.
Interessava-se pelas experimentações mediúnicas, desde 1779, quando conhecera Mesmer, em Paris, no estudo das célebres proposições lançadas a público pelo famoso magnetizador.
Reencarnando no início do século passado, apreciara, de perto, as realizações de Allan Kardec, na codificação do Espiritismo, e privara com Cahagnet e Balzac, com Théophile Gautier e Victor
Hugo, acabando seus dias na França, depois de vários decênios consagrados à mediunidade e ao magnetismo, nos moldes científicos da Europa. No mundo espiritual prosseguiu no mesmo rumo,
observando e trabalhando em seu apostolado educativo. Dedicando-se agora a obra de espiritualização no Brasil, e isto há mais de trinta anos, comentava, otimista, as esperanças do novo campo de
ação, dando-nos a conhecer a primorosa bagagem de memórias e experiências de que se fazia portador.
Maravilhados ao ouvi-lo, mal  lhe respondíamos a essa ou àquela indagação.
– Conhecíamos, sim – informamos, respeitosos, em dado
momento –, alguns aspectos do intercâmbio espiritual; todavia, o nosso desejo era amealhar mais amplas noções do assunto, com a simplicidade possível. Em outras ocasiões, estudáramos ao de
leve alguns fenômenos de psicografia, incorporação e materialização, no entanto, era isso muito pouco, à face dos múltiplos serviços que a mediunidade encerra em si mesma.
O anfitrião, afável, aquiesceu em elucidar-nos.
Colaborava em diversos setores de trabalho  e prodigalizarnos-ia aquilo que considerava, com humildade, como sendo “alguns apontamentos”.
Para começar, convidou-nos a ouvir um amigo que falaria sobre mediunidade a pequeno grupo de aprendizes encarnados e desencarnados, e em cuja palavra reconhecia oportunidade e valor.
Não nos fizemos de rogados ante a obsequiosa lembrança.
E, porque não havia tempo a perder, seguimo-lo, prestamente.

Em vasto recinto do Ministério das Comunicações, fomos apresentados ao Instrutor Albério, que se dispunha a iniciar a palestra.
Tomamos lugar entre as dezenas de companheiros que o seguiam, atentos, em muda expectação.
Como tantos outros orientadores que eu conhecia, Albério assomou à tribuna, sem cerimônia, qual se nos fora simples irmão, conversando conosco em tom fraternal.
– Meus amigos – falou, com segurança –, dando continuidade aos nossos estudos anteriores, precisamos considerar que a mente permanece na base de todos os fenômenos mediúnicos.
Não ignoramos que o Universo, a estender-se no Infinito, por milhões e milhões de sóis, é a  exteriorização do Pensamento Divino, de cuja essência partilhamos, em nossa condição de raios conscientes da Eterna Sabedoria, dentro do limite de nossa evolução espiritual.
Da superestrutura dos astros à  infra-estrutura subatômica, tudo está mergulhado na substância viva da Mente de Deus, como os peixes e as plantas da água estão contidos no oceano imenso.
Filhos do Criador, dEle herdamos a faculdade de criar e desenvolver, nutrir e transformar.
Naturalmente circunscritos nas dimensões conceptuais em que nos encontramos, embora na insignificância de nossa posição comparada à glória dos Espíritos que já atingiram a angelitude, podemos arrojar de nós a energia atuante do próprio pensamento, estabelecendo, em torno de nossa individualidade, o ambiente
psíquico que nos é particular.
Cada mundo possui o campo de  tensão eletromagnética que lhe é próprio, no teor de força gravítica em que se equilibra, e cada alma se envolve no circulo de forças vivas que lhe transpiram do “hálito” mental, na esfera de criaturas a que se imana, em obediência às suas necessidades de ajuste ou crescimento para a imortalidade.
Cada planeta revoluciona na órbita que lhe é assinalada pelas leis do equilíbrio, sem ultrapassar as linhas de gravitação que lhe dizem respeito, e cada consciência evolve no grupo espiritual a cuja movimentação se subordina.
Somos, pois, vastíssimo conjunto de Inteligências, sintonizadas no mesmo padrão  vibratório de percepção, integrando um todo, constituído de alguns bilhões de seres, que formam por assim dizer a Humanidade Terrestre.
Compondo, assim, apenas humilde família, no infinito concerto da vida cósmica, em que cada mundo guarda somente determinada família da Humanidade Universal, conhecemos, por enquanto, simplesmente as expressões da vida que nos fala mais de perto, limitados ao degrau de conhecimento que já escalamos.
Dependendo dos nossos semelhantes, em nossa trajetória para a vanguarda evolutiva, à maneira dos mundos que se deslocam no Espaço, influenciados pelos astros que os cercam, agimos e reagimos uns sobre os outros, através da energia mental em que nos renovamos constantemente, criando, alimentando  e destruindo
formas e situações, paisagens e coisas, na estruturação dos nossos destinos.
Nossa mente é, dessarte, um núcleo de forças inteligentes, gerando plasma sutil que, a exteriorizar-se incessantemente de nós, oferece recursos de objetividade às figuras de nossa imaginação, sob o comando de nossos próprios desígnios.
A idéia é um “ser” organizado  por nosso espírito, a que o pensamento dá forma e ao qual a vontade imprime movimento e direção.

Do conjunto de nossas idéias resulta a nossa própria existência.

O orador fez pequeno intervalo que ninguém ousou interromper e prosseguiu comentando:
– Segundo é fácil de concluir, todos os seres vivos respiram na onda de psiquismo dinâmico  que lhes é peculiar, dentro das dimensões que lhes são características ou na freqüência que lhes é
própria. Esse psiquismo independe dos centros nervosos, de vez que, fluindo da mente, é ele que condiciona todos os fenômenos da vida orgânica em si mesma.
Examinando, pois, os  valores anímicos como faculdades de comunicação entre os Espíritos, qualquer que seja o plano em que se encontrem, não podemos perder de vista o mundo mental do agente e do recipiente, porquanto, em qualquer posição mediúnica, a inteligência receptiva está sujeita às possibilidades e à colo-
ração dos pensamentos em que vive, e a inteligência emissora jaz submetida aos limites e às interpretações dos pensamentos que é capaz de produzir.
Um hotentote desencarnado, em se comunicando com um sábio terrestre, ainda jungido ao  envoltório físico,  não lhe poderá oferecer noticias outras, além dos assuntos triviais em que se lhe desdobraram no mundo as experiências primitivistas, e um sábio, sem o indumento carnal, entrando em relação com o hotentote,
ainda colado ao seu “habitat” africano, não conseguirá facultar-lhe cooperação imediata, senão no trabalho embrionário em que se lhe encravam os interesses mentais, como sejam o auxilio a um rebanho bovino ou a cura de males do corpo denso. Por isso mesmo, o hotentote não se sentiria feliz na  companhia do sábio e o
sábio, a seu turno, não  se demoraria com o hotentote, por falta desse alimento quase imponderável a que podemos chamar vibrações compensadas.
É da Lei, que nossas maiores  alegrias sejam recolhidas ao contacto daqueles que, em nos compreendendo, permutam conosco valores mentais de qualidades idênticas aos nossos, assim como as árvores oferecem maior coeficiente de produção se colocadas entre companheiras da mesma espécie, com as quais trocam
seus princípios germinativos.
Em mediunidade, portanto, não podemos olvidar o problema da sintonia.
Atraímos os Espíritos que se  afinam conosco, tanto quanto somos por eles atraídos; e se é verdade que cada um de nós somente pode dar conforme o que tem, é indiscutível que cada um recebe de acordo com aquilo que dá. Achando-se a mente na base de todas as manifestações mediúnicas, quaisquer que sejam os característicos em que se expressem, é imprescindível enriquecer o pensamento, incorporando-lhe
os tesouros morais e culturais, os únicos que  nos possibilitam fixar a luz que jorra para nós, das Esferas Mais Altas, através dos gênios da sabedoria e do amor que supervisionam nossas experiências.
Procederam acertadamente aqueles que compararam nosso mundo mental a um espelho.
Refletimos as imagens que nos cercam e arremessamos na direção dos outros as imagens que criamos.
E, como não podemos fugir ao imperativo da atração, somente retrataremos a claridade e a beleza, se instalarmos a beleza e a claridade no espelho de nossa vida íntima.
Os reflexos mentais, segundo a sua natureza, favorecem-nos a estagnação ou nos impulsionam a jornada para a frente, porque cada criatura humana vive no céu ou no inferno que edificou para si mesma, nas reentrâncias do coração e da consciência, independentemente do corpo físico, porque, observando a vida em sua
essência de eternidade gloriosa, a morte vale apenas como transição entre dois tipos da mesma experiência, no “hoje imperecível”.

Vemos a mediunidade em todos os tempos e em todos os lugares da massa humana.
Missões santificantes e guerras destruidoras, tarefas nobres e obsessões pérfidas, guardam origem nos reflexos da mente individual ou coletiva, combinados com as forças sublimadas ou degradantes dos pensamentos de que se nutrem.

Saibamos, assim, cultivar a educação, aprimorando-nos cada dia.
Médiuns somos todos nós, nas linhas de atividade em que nos situamos.
A força psíquica, nesse ou naquele teor de expressão, é peculiar a todos os seres, mas não  existe aperfeiçoamento mediúnico sem acrisolamento da individualidade.
É contraproducente  intensificar a movimentação da energia sem disciplinar-lhe os impulsos.
É perigoso possuir sem saber usar.
O espelho sepultado na lama não reflete o esplendor do Sol.
O lago agitado não retrata a imagem da estrela que jaz no infinito.

Elevemos nosso padrão de  conhecimento pelo estudo bem conduzido e apuremos a qualidade de nossa emoção pelo exercício constante das virtudes superiores, se nos propomos recolher a mensagem das Grandes Almas.
Mediunidade não basta só por si.
É imprescindível saber que tipo de onda mental assimilamos para conhecer da qualidade de nosso trabalho e ajuizar de nossa direção.

Albério prosseguiu ainda em seus valiosos comentários e, mais tarde, passou a responder a complicadas perguntas que lhe eram desfechadas por diversos aprendizes. Por minha vez recolhera largo material de meditação e, em razão disso, em companhia de Hilário, despedi-me dos instrutores com alguns monossílabos
de agradecimento, ouvindo de Áulus a promessa de reencontro para o dia seguinte.

Do livro: Nos Domínios da Mediunidade, Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira









Tipos e Definições

 As ondas são avaliadas segundo o comprimento
em que se expressam, dependendo esse comprimento do emissor em que se
verifica a agitação.

Fina vara tangendo as águas de um lago provocará ondas pequenas, ao
passo que a tora de madeira, arrojada ao lençol líquido, traçará ondas maiores.

Um contrabaixo lançá-las-á muito longas.
Um flautim desferí-las-á muito curtas.

As ondas ou oscilações eletromagnéticas são sempre da mesma
substância, diferenciando-se, porém, na pauta do seu comprimento ou
distância que se segue do penacho ou crista de uma onda à  crista da onda
seguinte, em vibrações mais, ou menos rápidas, conforme as leis de ritmo em
que se lhes identifica a frequência diversa.

Que é, no entanto, uma onda?

À falta de terminologia mais clara, diremos que uma onda é determinada
forma de ressurreição da energia, por intermédio do elemento particular que a
veicula ou estabelece.

Partindo de semelhante princípio, entenderemos que a fonte primordial de
qualquer irradiação é o átomo ou partes dele em agitação, despedindo raios ou
ondas que se articulam, de acordo com as oscilações que emite.

Do livro: Mecanismos da Mediunidade, Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira

O Perispírito Como Princípio das Manifestações

9. Os Espíritos, como já foi dito, têm um corpo fluídico, a
que se dá o nome de perispírito. Sua substância é haurida
do fluido universal ou cósmico, que o forma e alimenta,
como o ar forma e alimenta o corpo material do homem.
 O perispírito é mais ou menos etéreo, conforme os mundos e
o grau de depuração do Espírito.
 Nos mundos e nos Espíritos inferiores, ele é de natureza mais grosseira e se aproxima muito da matéria bruta.

12. Sendo um dos elementos constitutivos do homem, o
perispírito desempenha importante papel em todos os fenômenos psicológicos e, até certo ponto, nos fenômenos fisiológicos e patológicos. Quando as ciências médicas tiverem na devida conta o elemento espiritual na economia do ser, terão dado grande passo e horizontes inteiramente novos se lhes patentearão. As causas de muitas moléstias serão a esse tempo descobertas e encontrados poderosos meios
de combatê-las.

13. Por meio do perispírito é que os Espíritos atuam sobre
a matéria  inerte e produzem os diversos  fenômenos
mediúnicos. Sua natureza etérea não é que a isso obstaria,
pois se sabe que os mais poderosos motores se nos deparam nos fluidos mais rarefeitos e nos mais imponderáveis.
Não há, pois, motivo de espanto quando, com essa alavanca, os Espíritos produzem certos efeitos físicos, tais como pancadas e ruídos de toda espécie, levantamento, transporte ou lançamento de objetos. Para explicarem-se esses fatos, não há porque recorrer ao maravilhoso, nem ao
sobrenatural.

1 4 .  Atuando sobre a matéria, podem os Espíritos
manifestar-se de muitas maneiras diferentes: por efeitos
físicos, quais os ruídos e a movimentação de objetos; pela
transmissão do pensamento, pela visão, pela audição, pela
palavra, pelo tato, pela escrita, pelo desenho, pela música,
etc. Numa palavra, por todos os meios que sirvam a pô-los
em comunicação com os homens.


Do livro: Óbras Póstumas, Allan Kardec





Das Manifestações Visuais


100. De todas as manifestações espíritas, as mais interessantes, sem contestação
possível, são aquelas por meio das quais os Espíritos se tornam visíveis. Pela explicação
deste fenômeno se verá que ele não é mais sobrenatural do que os outros. Vamos
apresentar primeiramente as respostas que os Espíritos deram acerca do assunto:


21ª Como pode o Espírito fazer-se visível?
"O princípio é o mesmo de todas as manifestações, reside nas propriedades do
perispírito, que pode sofrer diversas modificações, ao sabor do Espírito."

22ª Pode o Espírito propriamente  dito fazer-se visível, ou só o pode com o
auxílio do perispírito?
"No estado material em que vos achais, só com o auxílio de seus invólucros
semimateriais podem os Espíritos manifestar-se. Esse invólucro é o intermediário por
meio do qual eles atuam sobre os vossos sentidos. Sob esse envoltório é que aparecem,
às vezes, com uma forma humana, ou com outra qualquer, seja nos sonhos, seja no
estado de vigília, assim em plena luz, como na obscuridade."

23ª Poder-se-á dizer que é pela condensação do fluido do perispírito que o
Espírito se torna visível?
"Condensação não é o termo. Essa palavra apenas pode ser usada para
estabelecer uma comparação, que vos faculte compreender o fenômeno, porquanto não
há realmente condensação. Pela combinação dos fluidos, o perispírito toma uma disposição
especial, sem analogia para vós outros, disposição que o torna perceptível."

26ª De que depende, para o homem, a faculdade de ver os Espíritos, em estado
de vigília?
"Depende da organização física. Reside na maior ou menor facilidade que tem o
fluido do vidente para se combinar com o do Espírito. Assim, não basta que o Espírito
queira mostrar-se, é preciso também que encontre a necessária aptidão na pessoa a
quem deseje fazer-se visível."

a) Pode essa faculdade desenvolver-se pelo exercício?
"Pode, como todas as outras faculdades; mas, pertence ao número daquelas com
relação às quais é melhor que se espere o desenvolvimento natural, do que provocá-lo,
para não sobreexcitar a imaginação. A de ver os Espíritos, em geral e permanentemente,
constitui uma faculdade excepcional e não está nas condições normais do homem."

Do livro: O Livro dos Médiuns, Allan Kardec


Fenômeno de Tranporte


96. Este fenômeno não difere do de que vimos de falar, senão pela intenção
benévola do Espírito que o produz, pela natureza dos objetos, quase sempre graciosos,
de que ele se serve e pela maneira suave, delicada mesmo, por que são trazidos.
Consiste no trazimento espontâneo de objetos inexistentes no lugar onde estão os
observadores. São quase sempre flores, não raro frutos, confeitos, jóias, etc.

Do livro: O Livro dos Médiuns, Allan Kardec

Da Teoria das Manifestações Físicas


VIII. Como pode um Espírito produzir o movimento de um corpo sólido?
"Combinando uma parte do fluido universal com o fluido, próprio àquele efeito,
que o médium emite."
IX. Será com os seus próprios membros, de certo modo solidificados, que os
Espíritos levantam a mesa?
"Esta resposta ainda não te levará até onde desejas. Quando, sob as vossas mãos,
uma mesa se move, o Espírito haure no fluido universal o que é necessário para lhe dar
uma vida factícia. Assim preparada a mesa, o Espírito a atrai e move sob a influência do
fluido que de si mesmo desprende, por efeito da sua vontade. Quando quer pôr em
movimento uma massa por demais pesada para suas forças, chama em seu auxílio outros
Espíritos, cujas condições sejam idênticas às suas. Em virtude da sua natureza etérea, o
Espírito, propriamente dito, não pode atuar sobre a matéria grosseira, sem
intermediário, isto é, sem o elemento que o liga à matéria. Esse elemento, que constitui
o que chamais perispírito, vos faculta a chave de todos os fenômenos espíritas de ordem
material. Julgo ter-me explicado muito claramente, para ser compreendido."
NOTA. Chamamos  a atenção para a seguinte frase, primeira da resposta acima:
Esta resposta  AINDA   te não levará até onde desejas.

O Espírito compreendera perfeitamente que todas as questões precedentes só haviam
sido formuladas para chegarmos a esta última e alude ao nosso pensamento que. com
efeito, esperava por outra resposta muito diversa, isto é, pela confirmação da idéia que
tínhamos sobre a maneira por que o Espirito obtém o movimento da mesa.

XI. São aptos, todos os Espíritos, a produzir fenômenos deste gênero?
"Os que produzem efeitos desta espécie são sempre Espíritos inferiores, que
ainda se não desprenderam inteiramente de toda a influência material."
XII. Compreendemos que os Espíritos superiores não se ocupam com coisas que
estão muito abaixo deles. Mas, perguntamos se, uma vez que estão mais
desmaterializados, teriam o poder de fazê-lo, dado que o quisessem?
"Os Espíritos superiores têm a força moral, como os outros têm a força física.
Quando precisam desta força, servem-se dos que a possuem. Já não se vos disse que
eles se servem dos Espíritos inferiores, como vós vos servis dos carregadores?"
NOTA. Já foi explicado que a densidade do perispírito, se assim se pode dizer,
varia de acordo com o estado dos mundos. Parece que também varia, em um mesmo
mundo, de indivíduo para indivíduo. Nos Espíritos moralmente adiantados, é mais sutil
e se aproxima da dos Espíritos elevados; nos Espíritos inferiores, ao contrário,
aproxima-se da matéria e é o que faz que os Espíritos de baixa condição conservem por
muito tempo as ilusões da vida terrestre. Esses pensam e obram como se ainda fossem
vivos; experimentam os mesmos desejos e quase que se poderia dizer a mesma
sensualidade. Esta grosseria do perispírito, dando-lhe mais  afinidade  com a matéria,
torna os Espíritos inferiores mais aptos às manifestações físicas. Pela mesma razão é que
um homem de sociedade, habituado aos trabalhos da inteligência, franzino e delicado de
corpo, não pode suspender fardos pesados, como o faz um carregador. Nele, a matéria
é, de certa maneira, menos compacta, menos resistentes os órgãos; há menos fluido nervoso. Sendo o perispírito, para o Espírito, o que o corpo
é para o homem e como à sua maior densidade corresponde menor inferioridade
espiritual, essa densidade substitui no Espírito a força muscular, isto é, dá-lhe, sobre os
fluidos necessários às manifestações, um poder maior do que o de que dispõem aqueles
cuja natureza é mais etérea. Querendo um Espírito elevado produzir tais efeitos, faz o
que entre nós fazem as pessoas delicadas: chama para executá-los um  Espírito do
ofício.

Do livro: O Livro dos Médiuns, Allan Kardec


domingo, 13 de novembro de 2011

Perante a Mediunidade


Reprimir qualquer iniciativa  tendente a assinalar a mediuni-
dade, o médium ou os fatos mediúnicos como extraordinários ou
místicos.
O intercâmbio mediúnico é acontecimento natural e o mé-
dium é um ser humano como qualquer outro.
*
Certificar-se de que o exercício natural da mediunidade não
exime o médium da obrigação de viver profissão honesta na soci-
edade a que pertence.
Não pode haver assistência digna onde não há dever digna-
mente cumprido.
*
Precaver-se contra as petições inadequadas junto à mediuni-
dade.
Os médiuns são companheiros comuns que devem viver nor-
malmente as experiências e as provas que lhes cabem.

*
Por nenhuma razão elogiar o medianeiro pelos resultados ob-
tidos através dele, lembrando-se que é sempre possível agradecer
sem lisonjear.
Para nós, todo o bem puro e nobre procede de Jesus-Cristo,
nosso Mestre e Senhor.
*
Ainda mesmo premido por extensas dificuldades, colocar o
exercício da mediunidade acima dos eventos efêmeros e limitados

que varrem constantemente os panoramas sociais e religiosos da
Terra.
A mediunidade nunca será talento para ser enterrado no solo
do comodismo.
*
Conversar sobre fenômenos mediúnicos e princípios espíritas
apenas em ambientes receptivos.
Há terrenos que ainda não estão amanhados para a semeadu-
ra.
*
Prosseguir sem vacilações no consolo e no esclarecimento das
almas, esquecendo espinheiros e pedras do vale humano, para
conquistar a luz da imortalidade que fulgura nos cimos da vida.
Desenvolver-se alguém mediunicamente, a bem do próximo,
é ascender em espiritualidade.
*
“E nos últimos dias acontecerá, diz o Senhor, que do meu
espírito derramarei sobre toda carne.”
(Atos, capítulo 2, versículo 17.)

Do livro: Conduta Espírita, Waldo Vieira


Do Médium


Esquivar-se à suposição de que detém responsabilidades ou
missões de avultada transcendência, reconhecendo-se humilde
portador de tarefas comuns, conquanto graves e importantes como
as de qualquer outra pessoa.
O seareiro do Cristo é sempre servo, e servo do amor.
*
No horário disponível entre as obrigações familiares e o tra-
balho que lhe garante  a subsistência, vencer os imprevistos que
lhe possam impedir o comparecimento às sessões, tais como
visitas inesperadas,  fenômenos climatéricos e outros motivos,
sustentando lealdade ao próprio dever.
Sem euforia íntima não há exercício mediúnico produtivo.
*
Preparar a própria alma em prece e meditação, antes da ativi-
dade mediúnica, evitando, porém, concentrar-se mentalmente para
semelhante mister durante as  explanações doutrinárias, salvo
quando lhe caibam  tarefas especiais concomitantes, a fim de que
não se prive do ensinamento.
A oração é luz na alma refletindo a Luz Divina.
*
Controlar as manifestações mediúnicas que veicula, repri-
mindo, quanto possível,  respiração ofegante,  gemidos, gritos e
contorções, batimentos de mãos e pés ou quaisquer gestos violen-
tos.

Esquivar-se à suposição de que detém responsabilidades ou
missões de avultada transcendência, reconhecendo-se humilde
portador de tarefas comuns, conquanto graves e importantes como
as de qualquer outra pessoa.
O seareiro do Cristo é sempre servo, e servo do amor.
*
No horário disponível entre as obrigações familiares e o tra-
balho que lhe garante  a subsistência, vencer os imprevistos que
lhe possam impedir o comparecimento às sessões, tais como
visitas inesperadas,  fenômenos climatéricos e outros motivos,
sustentando lealdade ao próprio dever.
Sem euforia íntima não há exercício mediúnico produtivo.
*
Preparar a própria alma em prece e meditação, antes da ativi-
dade mediúnica, evitando, porém, concentrar-se mentalmente para
semelhante mister durante as  explanações doutrinárias, salvo
quando lhe caibam  tarefas especiais concomitantes, a fim de que
não se prive do ensinamento.
A oração é luz na alma refletindo a Luz Divina.
*
Controlar as manifestações mediúnicas que veicula, repri-
mindo, quanto possível,  respiração ofegante,  gemidos, gritos e
contorções, batimentos de mãos e pés ou quaisquer gestos violen-
tos.

*
Fugir aos perigos que ameaçam a mediunidade, como sejam a
ambição, a ausência de autocrítica, a falta de perseverança no bem
e a vaidade com que se julga invulnerável.

O medianeiro carrega consigo os maiores inimigos de si pró-
prio.
*
“Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o
que for útil.”
Paulo. (1ª epístola aos coríntios, 12:7.)

Do Livro: Conduta Espírita, Waldo Vieira



Mediunidade


Sobremodo interessado no expressivo caso de Marcelo, apresentei a
Calderaro, no dia seguinte, certas questões que fortemente me preocupavam.
Os reflexos condicionados não se aplicariam, igualmente, a diversos
fenômenos medianlmicos? não elucidavam as mistificações inconscientes que,
muita vez, perturbam os círculos dos experimentadores encarnados?
Alguns estudiosos do Espiritismo, devotados e honestos, reconhecendo os
escolhos do campo do mediunismo, criaram a hipótese do fantasma anímico do
próprio medianeiro, o qual agiria em lugar das entidades desencarnadaS. Seria
essa teoria adequada ao caso vertente? Sob a evocação de certas imagens, o
pensamento do médium não se tornaria sujeito a determinadas associaçõeS,
interferindo automàticamente no intercâmbio entre os homens da Terra e os
habitantes do Além? Tais intervenções, em muitos casos, poderiam provocar
desequilíbrioS intensos. Ponderando observações ouvidas nos últimos tempos,
em vários centros de cultura espiritualista, com referência ao assunto, inquiria
de mim mesmo se o problema oferecia relações com os mesmos princípios de
Pavlov.
O instrutor ouviu-me, paciente, até ao fim de minhas considerações, e
respondeu, benévolo:
       - A consulta exige meditação mais acurada. A tese animista é respeitável.
Partiu de investigadores conscienciosos e sinceros, e nasceu para coibir os
prováveis abusos da imaginação; entretanto, vem sendo usada  cruelmente
pela maioria dos nossos colaboradores encarnados, que fazem dela um órgão
inquisitorial, quando deveriam aproveitá-la como elemento educativo, na ação
fraterna. Milhares de companheiros fogem ao trabalho, amedrontados, recuam
ante os percalços da iniciação mediúnica, porque o animismo se converteu em
Cérbero. Afirmações sérias e edificantes, tornadas em opressivo sistema,
impedem a passagem dos candidatos ao serviço pela gradação natural do
aprendizado e da aplicação. Reclama-se deles precisão absoluta, olvidando-se
lições elementares da natureza. Recolhidos ao castelo teórico, inúmeros
amigos nossos, em se reunindo para o elevado serviço de intercâmbio com a
nossa esfera, não aceitam comumente os servidores, que hão-de crescer e de
aperfeiçoar-se com o tempo e com o esforço. Exigem meros aparelhos de
comunicação, como se a luz espiritual se transmitisse da mesma  sorte que a
luz elétrica por uma lâmpada vulgar. Nenhuma árvore nasce produzindo, e
qualquer faculdade nobre requer burilamento. A mediunidade tem, pois sua
evolução, seu campo, sua rota. Não é possível laurear o estudante no curso
superior, sem que ele tenha tido suficiente aplicação nos cursos preparatórios,
através de alguns anos de luta, de esforço, de disciplina.  Daí, André, nossa
legitima preocupação em face da tese animista, que pretende enfeixar toda a
responsabilidade do trabalho espiritual numa cabeça única, isto é, a do
instrumento mediúnico. Precisamos de apelos mais altos, que animem os
cooperadores incipientes, proporcionando-lhes mais vastos recursos de
conhecimento na estrada por eles mesmos perlustrada, a fim de que a
espiritualidade santificante penetre os fenômenos e estudos atinentes ao
espírito.
Fez pequeno intervalo que não ousei interromper, fascinado pela elevação
dos conceitos ouvidos, e continuou: — Vamos à tua sugestão. Os reflexos condicionados enquadram-se,
efetivamente, no assunto; no entanto, cumpre-nos investigar domínio de mais
graves apreciações. Os animais de Pavlov demonstravam capacidade
mnemônica; memorizavam fatos por associações mentais espontâneas. Isto
quer dizer que mobilizavam matéria sutil, independente  do corpo denso; que
jogavam com forças mentais em seu aparelhamento de impulsos primitivos. Se
as «onsciênciaS fragmentádaSi’ do experimento eram capazes de usar essa
energia, provocando a repetição de determinados fenômenos no cosmo celular,
que prodígios não realizará a mente de um homem, cedendo, não a meros
reflexos condicionados, mas a emissões de outra mente em sintonia com a
dele? Dentro de tais princípios, é imperioso que o intermediário cresça em valor
próprio. Ocorrências extraordinárias e desconhecidas ocupam a vida em todos
os recantos, mas a elevação condiciona fervorosa procura. Ninguém receberá
as bênçãos da colheita, sem o suor da sementeira. Lamentàvelmente, porém, a
maior parte de nossos amigos parece desconhecerem tais imposições de
trabalho e de cooperação: exigem faculdades completas. O  instrumento
mediúnico é automaticamente desclassificado se não tem a felicidade de exibir
absoluta harmonia com os desencarnados, no campo tríplice das forças
mentais, perispirituais e fisiológicas. Compreendes a dificuldade?
Sim, começava a entender. As elucidações, todavia, eram demasiado
fascinantes para que me abalançasse a qualquer apontamento; guardei, por
isto, a continuação das definições, na postura de humilde aprendiz.
O Assistente percebeu minha íntima atitude e continuou:
— Buscando símbolo mais singelo, figuremos o médium como sendo
uma ponte a ligar duas esferas, entre as quais se estabeleceu aparente solu-
ção de continuidade, em virtude da diferenciação da matéria no campo
vibratório. Para ser instrumento relativamente exato, é-lhe imprescindível haver
aprendido a ceder, e nem todos os artífices da oficina mediúnica realizam, a
breve trecho, tal aquisição, que reclama devoção à felicidade do próximo,
elevada compreensão do bem coletivo, avançado espírito de concurso fraterno
e de serena superioridade nos atritos com a opinião alheia. Para conseguir
edificação dessa natureza, faz-se mister o refúgio frequente à “moradia dos
princípios superiores». A mente do servidor há-de fixar-se nas zonas mais altas
do ser, onde aprenderá o valor das concepções sublimes, renovando-se e
quintessenciando-se para constituir elemento padrão dos que lhe seguem a
trajetória, O homem, para auxiliar o presente, é obrigado a viver no futuro da
raça. A vanguarda impõe-lhe a soledade e a incompreensão, por vezes
dolorosas; todavia, essa condição representa artigo da Lei  que nos estatui
adquirir para podermos dar. Ninguém pode ensinar caminhos que não haja
percorrido. Nasce daí, em se tratando da mediunidade edificante, a necessidade de fixação das energias instrumentais no santuário  mais alto da
personalidade. Fenômenos — não lhes importa a natureza — é forçoso reconhecer que assediam a criatura em toda parte. A ciência legítima é a conquista
gradual das forças e operações da Natureza, que se mantinham ocultas à
nossa acanhada apreensão. E como somos filhos do Deus Revelador, infinito
em grandeza, éde esperar tenhamos sempre à frente ilimitados campos de
observação, cujas portas se abrirão ao nosso desejo de conhecimento, à
maneira que gradeçam nossos títulos meritórios. Por isto, André, consideramos
que a mediunidade mais estável e mais bela começa, entre  os homens, no
império da intuição pura. Moisés desempenhou sua tarefa, compelido pelas expressões fenomênicas que o cercavam; recebe, sob incoercível comoção, os
sublimes princípios do Decálogo, sentindo defrontar-se com  figuras e vozes
materializadas do plano espiritual; entretanto, ao mesmo tempo que transmite o
“não matarás”, não parece muito inclinado ao inquebrantável respeito pela vida
alheia; sua doutrina, venerável embora, baseia-se no exclusivismo e no temor.
Com Jesus, o aspecto da mediunidade é diferente. Mantém-se o Mestre em
permanente contacto com o Pai, através da própria consciência, do próprio
coração; transmite aos homens a Revelação Divina, vivendo-a em si mesmo;
não reclama justiça, nem pede compreensão imediata; ama  as criaturas e
serve-as, mantendo-se unido a Deus. Em razão disto, a Boa-Nova é
mensagem de confiança e de amor universal. Vemos, pois, dois tipos de
medianeiros do próprio Céu, eminentemente diversos, mostrando qual o
padrão desejável. No mediunismo comum, portanto, o colaborador servirá com
a matéria mental que lhe é própria, sofrendo-lhe as imprecisões naturais diante
da investigação terrestre; e, após adaptar-se aos imperativos mais nobres da
renúncia pessoal, edificará, não de improviso, mas à custa de trabalho
incessante, o templo interior de serviço, no qual reconhecerá a superioridade
do programa divino acima de seus caprichos humanos. Atingida essa
realização, estará preparado para sintonizar-se com o maior número de
desencarnados e encarnados, oferecendo-lhes, como a ponte benfeitora,
oportunidade de se encontrarem uns com os outros, na posição evolutiva em
que permaneçam, através de entendimentos construtivos. Devo  dizer-te que
não cogitamos aqui de faculdades acidentais, que aparecem  e desaparecem
entre candidatos ao serviço, sem espírito de ordem e de disciplina, verdadeiros
balões de ensaio para os vôos do porvir; referimo-nos à mediunidade aceita
pelo cooperador e mobilizável em qualquer situação para  o bem geral.
Comentando atividades e tarefas, devemos salientar os padrões que lhes
digam respeito, e este é o característico da instrumentalidade espiritual nas
esferas superiores. Logicamente, é impossível alcançá-lo de vez; toda obra
impõe começo.
Como revelasse nos olhos a indomável comoção que se apossara de mim
ante os conceitos ouvidos, o Assistente modificou a inflexão  da voz e
tranquilizou-me:
— Reportando-nos ainda ao Cristo, importa-nos reconhecer que o Mestre viveu
insulado no «monte divino da consciência», abrindo caminho aos vales
humanos. Claro está que nenhum de nós abriga a pretensão de copiar Jesus;
contudo, precisamos inspirar-nos em suas lições. Há milhões de seres
humanos, encarnados e desencarnados, de mente fixa na região menos
elevada dos impulsos inferiores, absorvidos pelas paixões instintivas, pelos
remanescentes do pretérito envilecido, presos aos reflexos condicionados das
comoções perturbadoras a que, inermes, se entregaram; outros tantos mantêm-se, jungidos à carne e fora dela, na atividade desordenada, em
manifestações afetivas sem rumo, no apego desvairado à forma que passou ou
à situação que não mais se justifica; outros, ainda, param na posição beata do
misticismo religioso exclusivo, sem realizações pessoais no setor da experiência e do mérito, que os integre no quadro da lídima elevação. Subtraído o
corpo físico, a situação prossegue quase sempre inalterada, para o organismo
perispirítico, fruto do trabalho paciente e da longa evolução. Esse organismo,
constituído, embora, de elementos mais plásticos e sutis, ainda é edifício
material de retenção da consciência. Muita gente, no plano da Crosta Planetária, conjetura que o Céu nos revista de túnica angelical, logo que
baixado o corpo ao sepulcro. Isto, porém, 6 grave erro no terreno da
expectativa. Naturalmente, não nos referimos, nestas considerações, a
espíritos da estofa de um Francisco de Assis, nem a criaturas extremamente
perversas, uns e outros não cabíveis em nosso quadro: o zênite e o nadir da
evolução terrestre não entram em nossas cogitações; falamos de pessoas
vulgares, quais nós mesmos, que nos vamos em jornada progressiva, mais ou
menos normal, para concluir que, tal o estado mental que alimentamos, tais as
inteligências, desencarnadas ou encarnadas, que atraímos, e das quais nos
fazemos instrumentos naturais, embora de modo indireto. E a realidade, meu
amigo, é que todos nós, que nos contamos por centenas de milhões, não
prescindimos de medianeiros iluminados, aptos a colocar-nos em comunicação
com as fontes do Suprimento Superior. Necessitamos do auxílio de mais alto,
requeremos o concurso dos benfeitores que demoram acima de nossas
paragens. Para isto, há que organizar recursos de receptividade. Nossa mente
sofre sede de luz, como o organismo terreno tem fome de pão. Amor e
sabedoria são substâncias divinas que nos mantêm a vitalidade.
O instrutor fez breve interrupção e acres-centou:
— Compreendes agora a importância da mediunidade, isto é, da elevação
de nossas qualidades receptivas para alcançarem a necessária sintonia com os
mananciais da vida superior?
Sim, respondi, entendera-lhe as observações, ponderando-lhes a
magnitude.
— Não é serviço que possamos organizar da periferia para o  centro —
prosseguiu Calderaro
— e sim do interior para o exterior. O homem encarnado, quase sempre
empolgado pelo sono da ilusão, poderá começar pelo fenômeno; à maneira,
porém, que desperte as energias mais profundas da consciência, sentirá a
necessidade do reajustamento e regressará à causa de modo a aperfeiçoar os
efeitos. Obra de construção, de tempo, de paciência...
Chegados a essa altura da conversação, o orientador convidou-me ao
serviço de assistência a dedicada senhora, médium em processo de formação,
que lhe vinha recebendo socorro para prosseguir na tarefa, com a fortaleza e
serenidade indispensáveis.
Propiciando-me o feliz ensejo, meu gentil interlocutor concluiu:
— O caso é oportuno. Observarás comigo os obstáculos criados pela tese
animista.
Marcava o relógio precisamente vinte horas, quando penetramos
confortável recinto. Várias entidades de nosso plano ali se moviam, ao lado de
onze companheiros reunidos em sessão íntima, consagrada ao serviço da
oração e do desenvolvimento psíquico. Logo à entrada, recebeu-nos atencioso
colega, a quem fui apresentado com sincera satisfação.
Recebi dele, de início, informações condensadas que anotei, contente.
Fora igualmente médico. Deixara a experiência física antes de concretizar
velhos planos de assistência fraternal aos seus inumeráveis doentes pobres.
Guardava o júbilo de uma consciência tranquila, zelara o bem geral quanto lhe
fora possível; contudo, entrevendo a probabilidade de algo fazer além-túmulo,
recebera permissão para cooperar naquele reduzido grupo  de amigos, com o
objetivo de efetuar certo plano de socorro aos enfermos desamparados. O
intercâmbio com os desencarnados não poderia transformar os homens em anjos de um dia para outro, mas poderia ajudá-los a ser criaturas melhores.
Impossível seria instalar o paraíso na Crosta do mundo em algumas semanas;
entretanto, era lícito cooperar no aprimoramento da sociedade terrestre, incentivando-se a prática do bem e a devoção à fraternidade. Para esse fim, ali
permanecia, interessado em contribuir na proteção aos doentes menos
aquinhoados.
Acompanhando-lhe os argumentos com admiração, mantive-me silencioso,
mas Calderaro indagou, cortês, após inteirar-se das ocorrências:
— E como vai no desenvolvimento de seus elevados propósitos?
— Dificilmente — informou o interpelado —, os recursos de comunicação
ao meu alcance ainda não são de molde a inspirar confiança à maioria dos
companheiros encarnados. A bem dizer, não me interessa comparecer aqui, de
nome aureolado por terminologia clássica, e nem me abalançaria a oferecer
teses novas, concorrendo com o mundo médico. Guia-me, agora, tão somente
o sadio desejo de praticar o bem. Entretanto...
— Ainda não lhe ouviram os apelos, por intermédio de Eulália? —
perguntou o meu instrutor.
— Não; por enquanto, não. Sempre a mesma suspeita de animismo, de
mistificação Inconsciente...
Ia a palestra a meio, quando o diretor espiritual da casa convidou o colega
a experimentar. Chegara o minuto aprazado. Poderia acercar-se da médium.
Aproximamo-nos do grupo de amigos, imersos em profunda concentração.
Enquanto o novo conhecido se abeirava de uma senhora de porte distinto,
certamente ensaiando a transmissão da mensagem que desejava passar à
esfera carnal, Calderaro observou-me:
— Repara o conjunto. Já fiz meus apontamentos. Com exceção  de três
pessoas, os demais, em número de oito, guardam atitude favorável. Todos
esses se encontram na posição de médiuns, pela passividade que
demonstram. Analisa a irmã Eulália e reconhecerás que o  estado receptivo
mais adiantado lhe pertence; dos oito cooperadores prováveis, é a que mais se
aproxima do tipo necessário. No entanto, o nosso amigo médico não encontra
em sua organização psicofísica elementos afins perfeitos: nossa colaboradora
não se liga a ele através de todos os seus centros perispirituais; não é capaz
de elevar-se à mesma frequência de vibração em que se acha o comunicante;
não possui suficiente espaço interior” para comungar-lhe as idéias e
conhecimentos; não lhe absorve o entusiasmo total pela Ciência, por ainda não
trazer de outras existências, nem haver construído, na experiência atual, as
necessárias teclas evolucionárias, que só o trabalho sentido e vivido lhe pode
conferir. Eulália manifesta, contudo, um grande poder  — o da boa vontade
criadora, sem o qual é impossível o inicio da ascensão às zonas mais altas da
vida. É a porta mais importante, pela qual se entenderá com o médico
desencarnado. Este, a seu turno, para realizar o nobre desejo que o anima, vê-
se compelido, em face das circunstâncias, a pôr de lado a nomenclatura oficial,
a técnica científica, o patrimônio de palavras que lhe é peculiar, as definições
novas, a ficha de renome, que lhe coroa a memória nos círculos dos
conhecidos e dos clientes. Poderá identificar-se com Eulália para a mensagem
precisa, usando também, a seu turno, a boa vontade; e, adotando esta forma
de comunicação, valer-se-á, acima de tudo, da comunhão mental, reduzindo ao
mínimo a influência sobre os centros neuropsíquicos; é que, em matéria de
mediunismo, há tipos idênticos de faculdades, mas enormes desigualdade nos graus de capacidade receptiva, os quais variam infinitamente, como as
pessoas.
O instrutor silenciou por momentos e prosseguiu:
— Não nos esqueça que formamos agora uma equipe de trabalhadores em
ação experimental. Nem o provável comunicante chegou a concretizar as
bases de seu projeto, nem a médium conseguiu ainda suficiente clareza e
permeabilidade para cooperar com ele. Num terreno de  atividades definidas,
neste particular, poderíamos agir à vontade; aqui, não: nosso procedimento
deve ser de neutralidade mental, não de interferência. Compreendendo, pois,
que todos os recursos cumpre serem aproveitados no êxito da  louvável
edificação, nenhum de nós intervirá, perturbando ou consumindo tempo. é-nos
facultado permutar ideias, analisar a ocorrência, mas com absoluta Isenção de
ânimo. O momento pertence ao comunicante, que não dispõe de aparelhamento mais perfeito para a transmissão.
Nesse instante, indicou-me o colega que, de pé, junto de Eulália, mantinha
a mente iluminada e vibrante num admirável esforço por  derruir a natural
muralha, entre a nossa esfera e o campo de matéria densa.
— Anota as particularidades do serviço — disse-me Calderaro,  com
significativa inflexão de voz —; todos os companheiros em posição receptiva
estão absorvendo a emissão mental do comunicante, cada qual a seu modo.
Repara calmamente.
Circulei a mesa e vi que os raios de força positiva do mensageiro
efetivamente incidiam em oito pessoas. Reconheci que o tema central do desejo formulado por nosso amigo, no tocante ao projeto de assistência aos
enfermos, alcançava o cérebro dos que se conservavam em atitude passiva; na
tela animada de concentração de energias mentais, cada irmão recebia o
influxo sugestivo, que de logo lhes provocava a livre associação dos
psicanalistas.
Fixei as particularidades com atenção.
Ao receberem a emissão de forças do trabalhador do bem, um cavalheiro
recordou comovente paisagem de hospital; outro rememorou o exemplo de
uma enfermeira bondosa que com ele travara relações; outro abrigou
pensamentos de simpatia para com os doentes desamparados; duas senhoras
se lembraram da caridosa missão de Vicente de Paulo; a uma velhinha acudiu
a ideia de visitar algumas pessoas acamadas que lhe eram queridas; um jovem
reportou-se, em silêncio, a notáveis páginas que lera sobre piedade fraternal
para com todos os semelhantes afastados do equilíbrio físico.
Examinei também as três pessoas que se mantinham impermeáveis ao
serviço benemérito daquela hora. Duas delas contristavam-se  por haver perdido uma sessão cinematográfica, e a outra, uma senhora na idade provecta,
retinha a mente na lembrança das ocupações domésticas, que  supunha
imperiosas e inadiáveis, mesmo ali, num círculo de oração,  onde devera
beneficiar-se com a paz.
Somente Eulália recebia o apelo do comunicante com mais nitidez. Sentiase ao seu lado; envolvia-se em seus pensamentos; possuía-se, não só de
receptividade, mas também de boa disposição para servi-lo.
Decorridos alguns minutos de expectativa e de preparo silencioso, a mão
da médium, orientada pelo médico e movida em cooperação com os estímulos
psicofísicos da intermediária, começou a escrever, em caracteres irregulares,
denunciando o natural conflito de dois cosmos psíquicos diferentes, mas empenhados num só objetivo — a produção de uma obra elevada.
Acompanhei a cena com interesse.
Mais alguns momentos, e fazia-se a leitura do pequeno texto obtido.
O comunicado era vazado em forma singela, como um apelo fraternal.
“Meus irmãos — escrevera o emissário —, que Deus nos abençoe.
‘Identificados na construção do bem, trabalhemos na assistência aos
enfermos, necessitados de nosso concurso entre os longos sofrimentos da provação terrestre, O serviço pertence à boa vontade unida à fé viva. E a
sementeira reclama trabalhadores abnegados, que ignorem cansaço, tristeza e
desânimo.
“Sigamos para a frente.
(Cada pequenina demonstração de esforço próprio, nas realizações da
caridade, receberá do Senhor a Divina Bênção.
(Aprendamos, pois, a socorrer nossos amigos doentes. Através de espessa
noite de dor, sofrem e choram, muita vez em pleno abandono.
(Não vos magoará a contemplação de tal quadro? Lembremo-nos dAquele
Divino Médico que passou, no mundo, fazendo o bem. DEle  receberemos a
força necessária para progredir. Estará conosco na grande jornada de
comiseração pelos que padecem.
(Fiamos em vós, em vossa dedicação à causa da bondade evangélica.
(A estrada será talvez difícil e fragosa; entretanto, o Senhor permanecerá
conosco.
(Prossigamos, intimoratos, e que Ele nos abençoe agora e sempre.
O comunicante assinou o nome, e, daí a alguns minutos, encerravam-se os
serviços espirituais da noite.
O presidente da sessão, seguido pelos demais companheiros, Iniciou o
estudo e debate da mensagem. Concordou-se em que era edificante na essência, mas não apresentava índices concludentes da identificação individual;
não procedia, possívelmente, do conhecido profissional que  a subscrevera;
faltavam-lhe os característicos especiais, pois um médico usaria nomenclatura
adequada, e se afastaria da craveira comum.
E a tese animista apareceu como tábua de salvação para todos.
Transferiu-se a conversação para complicadas referências ao mundo europeu;
falou-se extensalnente de Richet e do metapsiquismo internacional; Pierre
Janet, Charcot, De Rochas e Aksakof eram a cada passo trazidos à balha.
O comunicante, em nosso plano de ação, dirigiu-se, desapontado, ao meu
orientador e comentou:
— Ora essa! jamais desejei despertar semelhante polêmica doméstica.
Pretendemos algo diferente. Bastar-nos-ia um pouco de amor pelos enfermos,
nada mais.
Calderaro sorriu, sem dizer palavra, e evidenciando preocupação em
objetivo mais importante, acercou-se de Eulália, entristecida.
A médium ouvia as definições preciosas com irrefreável amargura.
Turvara-se-lhe a mente, agora, empanada por densos véus de dúvida. A
argumentação em curso nublava-lhe o entendimento. Marejavam-se-lhe os
olhos de lágrimas, que não chegavam a cair.
Abeirando-se dela, o instrutor falou-me, bondoso:
— Nossos amigos encarnados nem sempre examinam as situações pelo
prisma da justiça real. Eulália é colaboradora preciosa e sincera. Se ainda não
completou as aquisições culturais no campo científico, é suficientemente rica de amor para contribuir à sementeira de luz. Encontra-se, porém, desabrigada,
entre os companheiros invigilantes. Permanece sozinha e, assediada como
está, é suscetível de abater-se. Auxiliemo-la sem detença.
A destra do Assistente espalmada sobre a cabeça de nossa respeitável
irmã expendia brilhantes raios, que lhe desciam do encéfalo ao tórax, qual fluxo
renovador.
A médium, que antes parecia torturada, sopitando a custo a natural reação
às opiniões que ouvia, voltou à serenidade. Caiu-lhe a máscara de
descontentamento, dissipou-se-lhe a tristeza destrutiva; os centros
perispiríticos tornaram à normalidade; a epífise irradiou branda luz. As nuvens
de mágoa, que se lhe esboçavam na mente, esfumaram-se como por encanto.
Em suma, amparada pela atuação direta do meu orientador, Eulália sabia dos
percalços do trabalho e mergulhava-se gradativamente no ameno clima da
compreensão.
Restabelecendo-lhe a tranquilidade, o instrutor, em seguida, conservou as
mãos apoiadas aos lobos frontais, agindo-lhe sobre as fibras inibidoras.
Observei, então, nova mudança. A mente da médium, como que se introvertia,
desinteressando-se da conversação em torno e ficando mais atenta ao nosso
campo de ação. O contacto benéfico do Assistente cortava-lhe, de modo
imperceptível para ela, o interesse pelas referências sem proveito,
convocando-a a mais íntimo intercâmbio conosco.
Com ternura paternal, Calderaro, conservando as mãos na mesma postura,
inclinou-se-lhe aos ouvidos e falou carinhosamente:
— “Eulalia, não desanimes! A fé representa a força que sustenta o espírito
na vanguarda do combate pela vitória da luz divina e do  amor universal.
Nossos amigos não te acusam, nem te ferem: tão sõmente dormem na ilusão e
sonham, apartados da verdade; exculpa-os pelas futilidades do momento. Mais
tarde eles despertarão para o esforço de espalhar-se o bem... Investigam com
os olhos a superfície das coisas, mas seus ouvidos ainda não escutaram o
sublime apelo à redenção. Sigamos para a frente. Estaremos contigo na tarefa
diária. É necessário amar e perdoar sempre, esquecendo o dia obscuro, a fim
de alcançar os milênios luminosos. Não desfaleças! O Eterno  Pai te
abençoará.”
Reparei que Eulália não registrava aquelas palavras com os tímpanos de
carne. Encheram-se-lhe os lobos frontais de intensa luz. As  frases comovedoras do instrutor represaram-se-lhe no cérebro e no coração, quais
pensamentos sublimes que lhe caiam do céu, saturados de calor reconfortante
e bendito.
Sim — respondia, do fundo d’alma, a devotada colaboradora, embora os
lábios se lhe cerrassem no incompreendido silêncio —, trabalharia até ao fim,
consciente de que o serviço da verdade pertence ao Senhor,  e não aos
homens. Olvidaria todos os golpes. Receberia as objeções dos  outros,
transformando-as em auxílios. Converteria as opiniões desanimadoras em
motivos de energia nova. Dar-se-ia pressa em reconhecer os próprios defeitos,
sempre que fôssem indigitados pela franqueza de alguém,  rendendo graças
pela oportunidade de corrigi-los, quanto possível. Caminharia para a frente.
Ser-lhe-ia a mediunidade um campo de trabalho, onde  aperfeiçoaria os
sentimentos que nutria, sem cogitar dos utensílios para servi-la: que lhe
importavam, com efeito, as dificuldades psicográficas, se lhe pulsava um
coração disposto a amar? Sim, ouviria as sugestões do bem, antes de tudo. Seria fiel a Deus e a si mesma. Se os companheiros humanos não a pudessem
entender, não lhe restava o conforto de ser compreendida pelos amigos da vida
espiritual? Ao termo da experiência terrestre, haveria suficiente luz para todos.
Cumpria-lhe crer, trabalhar, amar e esperar no Divino Senhor.
O Assistente retirou as mãos, deixando-a livre e, reaproximando-se de
mim, asseverou:
— Nossa irmã foi auxiliada e está bem, louvado seja Deus!
Observando os lobos frontais da médium, tão revestidos de luminosidade,
fiz sentir a Calderaro minha admiração.
O instrutor amigo, não se esquivando a novos esclarecimentos, informou:
— Eulália, neste instante, fixa-se mentalmente na região mais alta que lhe é
possível. Recolhe-se, calma, no santuário mais intimo, de modo a compreender
e desculpar com proveito.
Indicando a referida região cerebral, concluiu:
— Nos lobos frontais, André, exteriorização fisiológica de  centros
perispiríticos importantes, repousam milhões de células, à  espera, para
funcionar, do esforço humano no setor da espiritualização. Nenhum homem,
dentre os mais arrojados pensadores da Humanidade, desde o pretérito até os
nossos dias, logrou jamais utilizá-las na décima parte. São forças de um campo
virgem, que a alma conquistará, não sõmente em continuidade evolutiva, senão
também a golpes de auto-educação, de aprimoramento moral e de elevação
sublime; tal serviço, meu amigo, só a fé vigorosa e reveladora pode encetar,
como indispensável lâmpada vanguardeira do progresso individual.

Do livro: No Mundo Maior, Francisco Cândido Xavier


Controvérsias sobre a ideia da existência dos seres intermediários entre o homem e Deus - Comentário de Kardec.


Caro Mestre:
Algum tempo já faz que não dou sinal de vida. Muito
ocupado sempre, durante a minha estada em Lião, não pude
ter conhecimento tão perfeito, quanto desejara, do estado
atual da doutrina, neste grande centro. A uma única
reunião espírita assisti. Entretanto, cheguei a comprovar
que, neste meio, a primitiva fé continua sendo qual deve
ser nos corações verdadeiramente sinceros.
Em diversos outros Centros do Meio-dia, ouvi discutirem a seguinte opinião externada por alguns magnetizadores: que muitos fenômenos, ditos espíritas, são simples efeitos de sonambulismo e que o Espiritismo mais não fez do
que se substituir ao magnetismo, ou, antes, do que lhe substituir ridiculamente o nome. É, como vedes, um novo ataque
dirigido contra a mediunidade. Assim, segundo essas pessoas, tudo o que escrevem os médiuns resulta das faculdades da alma encarnada; é esta quem, desprendendo-se
momentaneamente, lê o pensamento das pessoas presentes; é ela quem vê, a distância, e prevê os acontecimentos;
quem, por meio de um fluido magnético-espiritual, agita,
levanta, derriba mesas, ouve os sons, etc. Tudo, em suma,
assentaria na essência anímica, sem a intervenção de seres
puramente espirituais.
Direis que não vos dou nenhuma novidade. Eu mesmo, com efeito, tenho ouvido, desde alguns anos, a sustentação dessa tese por parte de alguns magnetizadores. Agora, porém, procuram implantar essas idéias que, a meu
ver, são contrárias à verdade. É sempre errôneo cair nos
extremos e tanto exagero há em tudo atribuir-se ao Magnetismo, quanto haveria, da parte dos espíritas, em negarem
as leis do Magnetismo. Não se poderiam arrebatar à maté-
ria as leis magnéticas, como não se poderiam arrebatar ao
Espírito as leis puramente espirituais.
Onde acaba o poder da alma sobre os corpos? Qual a
parte dessa força inteligente nos fenômenos do Magnetismo?
Qual a do organismo? Aí estão questões de muito interesse,
questões graves para a Filosofia, como para a Medicina.
Aguardando a solução desses problemas, citar-vos-ei
algumas passagens de Charpignon, o doutor de Orléans,
partidário da transmissão do pensamento. Vereis que ele
se reconhece impotente para demonstrar que, na visão propriamente dita, a causa reside na extensão do simpático
orgânico, como o pretendem muitos autores.


Diz, à pág. 289:
“Acadêmicos, duplicai o trabalho dos vossos candidatos; moralistas, promulgai leis para a sociedade, para o
mundo, esse mundo que de tudo ri, que quer os seus gozos, desprezando as leis de Deus e os direitos do homem e
que zomba dos vossos esforços, porque tem a seu serviço
uma força de que não suspeitais e que deixastes crescesse
de tal maneira, que não sois senhores de contê-la.


À pág. 323:
“Compreendemos muito bem, até aqui, o modo de
transmissão do pensamento, mas somos incapazes de compreender, por meio dessas leis de simpatia harmônica, o
sistema pelo qual o homem forma em si mesmo tal ou tal
pensamento, tal ou tal imagem, e a solicitação de objetos
exteriores. Isso está fora das propriedades do organismo e
a psicologia, achando nessa faculdade rememorativa ou
criadora, conforme o desejo do homem, alguma coisa de
antagônico com as propriedades do organismo, fá-la depender de um ser substancial, diferente da matéria. Come-
çamos, então, a encontrar, no fenômeno do pensamento,
algumas lacunas entre a capacidade das leis fisiológicas do
organismo e o resultado obtido. O rudimento do fenômeno,
se assim nos podemos exprimir, é bem fisiológico, mas a
sua extensão, verdadeiramente prodigiosa, não o é. E, aqui,
necessário se torna admitir que o homem goza de uma faculdade que não pertence a nenhum dos dois elementos
materiais de que, até ao presente, o temos visto composto.
O observador de boa-fé reconhecerá, pois, uma terceira parte
que entrará na composição do homem, parte que começa a se lhe revelar, do ponto de vista da psicologia magnética,
por meio de caracteres novos, e que se relacionam com o
que os filósofos atribuem à alma.
“A existência, porém, da alma se encontra mais fortemente demonstrada pelo estudo de algumas outras faculdades do sonambulismo magnético. Assim, a visão a distância,
quando completa e nitidamente destacada da transmissão
do pensamento, não poderia, segundo a nossa maneira de
ver, explicar-se pela extensão do simpático orgânico.”
Depois, à pág. 330:
“Tínhamos, como se vê, grandes motivos para avançar
que o  estudo dos fenômenos magnéticos guarda fortes
relações com a filosofia e a psicologia. Assinalamos um
trabalho a ser feito e a fazê-lo convidamos os homens da
especialidade.”
Nas páginas seguintes, trata dos seres imateriais e de
suas possíveis relações com as nossas individualidades.
Pág. 349:
“Para nós, é fora de dúvida e precisamente por motivo
das leis psicológicas que esboçamos neste trabalho, que a
alma humana pode ser esclarecida diretamente, ou por
Deus, ou por uma outra inteligência. Cremos que essa comunicação sobrenatural pode dar-se, assim no estado
normal, como no estado extático, seja espontâneo, seja
artificial."


Pág. 351:
“Mas, insistimos em dizer que a previsão natural no
homem é limitada e não poderia ser tão precisa, tão constante e tão amplamente exposta, como as previsões feitas
pelos profetas sagrados, ou por homens que tinham a
inspirá-los uma inteligência superior à alma humana.”
Pág. 391:
“A Ciência e a crença no mundo sobrenatural são dois
termos antagônicos; mas, apressamo-nos a dizê-lo, são-no
em conseqüência das exagerações que surgiram dos dois
lados. É possível, ao nosso parecer, que a Ciência e a lei
façam aliança; então, o espírito humano se achará no nível
da sua perfectibilidade terrestre.”
Pág. 396:
“O Antigo, tanto quanto o Novo Testamento, assim como
os anais de todos os povos, estão cheios de fatos que não se
podem explicar, a não ser pela ação de seres superiores ao
homem. Aliás, os estudos de Antropologia, de Metafísica e
de Ontologia provam a realidade da existência de  seres
imateriais entre o homem e Deus e a possibilidade de eles
influírem sobre a espécie humana.”
Agora, a opinião de uma das principais autoridades
em Magnetismo, sobre a existência de seres fora da Humanidade. Extraímo-la da correspondência de Deleuze com o
Dr. Billot:
“O único fenômeno que parece comprovar a comunicação com os seres imateriais são as aparições, das quais
há muitos exemplos. Como estou convencido da imortalidade da alma, não encontro razões para negar a possibilidade da aparição das pessoas que, tendo deixado esta vida, se preocupam com os que aqui lhes foram caros e vêm
apresentar-se-lhes, para lhes darem salutares conselhos.”
O Dr. Ordinaire, de Mâcon, outra autoridade na matéria,
assim se exprime:
“O fogo sagrado, a influência secreta (de Boileau), a
inspiração, não provêm, pois, de tal ou tal contextura, como
o pretendem os frenologistas, mas de uma alma poética,
em relação com um Gênio ainda mais poético. O mesmo
com relação à música, à pintura, etc. Essas inteligências
superiores não seriam almas desprendidas da matéria e
que se elevam gradualmente, à medida que se depuram,
até à grande, à universal inteligência que as abrange todas,
até Deus? Não tomariam lugar as nossas almas,  após
diversas migrações, entre esses seres materiais?”
“Do que precede, diz o mesmo autor, concluímos: que
o estudo da alma ainda está na infância; que, existindo, do
pólipo ao homem, uma série de inteligências e sendo certo
que nada em a Natureza se interrompe bruscamente, é racional que exista, do homem a Deus, outra série de inteligências. O homem é o elo que liga as inteligências inferiores, associadas à matéria, às inteligências superiores,
imateriais. Do homem a Deus desdobra-se uma série semelhante à que vai do pólipo ao homem, isto é, uma série de
seres etéreos, mais ou menos perfeitos, no gozo de especialidades diversas, com empregos e funções variadas.
“Qu e   e s s a s   i n t e l i g ê n c i a s   s u p e r i o r  e s   s e   r  e v e l am
tangivelmente no sonambulismo artificial;
“Que essas inteligências têm relações íntimas com as
nossas almas; “Que a essas inteligências é que devemos os remorsos, quando praticamos o mal, e o contentamento, quando
praticamos uma boa ação;
“Que a essas inteligências é que os homens superiores
devem as boas inspirações;
“Que a essas inteligências é que os extáticos devem a
faculdade de prever o futuro e de anunciar acontecimentos
porvindouros;
“Enfim, que, para atuar sobre essas inteligências e torná-
-las propícias, ação poderosa têm a virtude e a prece.”
NOTA — A opinião de tais homens, e eles não são os únicos, tem
decerto um valor que ninguém poderia contestar; porém, nunca
passaria de uma opinião mais ou menos racional, se a observa-
ção não a confirmasse. O Espiritismo está todo nas idéias que
acabamos de citar; apenas, ele as completa por meio de observa-
ções especiais e as coordena, imprimindo-lhes a sanção da experiência.
Os que se obstinam em negar a existência do mundo espiritual, sem poderem, contudo, negar os fatos, se esfalfam por lhes
encontrar a causa exclusivamente no mundo corpóreo. Mas, uma
teoria, para ser verdadeira, tem que explicar todos os fatos a que
diz respeito; um único fato contraditório a destrói, porquanto não
há exceções nas leis da Natureza. Foi o que aconteceu à maioria
das que no princípio se imaginaram para explicar os fenômenos
espíritas. Quase todas caíram, uma a uma, diante de fatos que
elas não abrangiam. Depois de haverem experimentado, sem resultado algum, todos os sistemas, forçoso se tornou volverem às
teorias espíritas, como as mais concludentes, porque, não tendo sido formuladas prematuramente e sobre observações feitas à
pressa, abrangem todas as variedades, todos os matizes dos fenômenos. O que fez fossem aceitas tão rapidamente pela maioria
das gentes foi que  cada um achou nelas a solução completa e
satisfatória para o que inutilmente procuram resolver por outras
vias.
Entretanto, muitos ainda as repelem, o que é comum a todas as grandes idéias novas que mudam os hábitos e as crenças,
as quais todas esbarraram durante longo tempo em contraditores
obstinados, mesmo entre os homens mais esclarecidos. Um dia,
porém, chega em que o que é verdadeiro sobreleva o que é falso e
todos se admiram da oposição que lhe moveram, tão natural parece o que fora repelido. O mesmo se dará com o Espiritismo,
sendo de notar-se que de todas as grandes idéias que hão revolucionado o mundo, nenhuma conquistou em tão pouco tempo tão
grande número de adeptos em todos os países e em todas as camadas sociais. Tal a razão por que os espíritas, cuja fé não é cega,
antes se funda na observação, não se preocupam nem com os seus
contraditores, nem com os que lhes partilham das idéias. Eles
ponderam que, ressaltando das próprias leis da Natureza, em vez
de basear-se numa derrogação dessas leis, não pode a Doutrina
deixar de prevalecer, desde que essas leis sejam reconhecidas.
Como todos sabem, não é nova a idéia da existência de seres
intermediários entre Deus e o homem. Em geral, porém, toda gente
supunha que esses seres constituíam uma criação à parte. As
religiões os designaram pelos nomes de anjos e demônios, os pagãos lhes chamavam deuses. Provando que tais seres não são
senão as almas dos homens em diferentes graus da escala espiritual, o Espiritismo reintegra a criação na unidade grandiosa que
é a essência mesma das leis divinas. Em vez de uma imensidade de
criações estacionárias, que implicariam, da parte da Divindade, capricho ou parcialidade, ele mostra haver uma única, essencialmente progressiva, sem privilégio para qualquer criatura, elevando-se cada individualidade do estado de embrião ao de desenvolvimento completo, como o gérmen que da semente se eleva ao
estado de árvore. O Espiritismo, pois, revela a unidade, a harmonia e a justiça na Criação. Segundo ele, os demônios são as
almas atrasadas, ainda prenhes dos vícios da Humanidade; os
anjos são essas mesmas almas depuradas e desmaterializadas;
entre esses dois pontos extremos, a multidão das almas nos diferentes graus da escala progressiva. Estabelece desse modo a
solidariedade entre o mundo espiritual e o mundo corpóreo.
Quanto à questão proposta: — “Nos fenômenos espíritas ou
sonambúlicos, qual o limite onde cessa a ação própria da alma e
começa a dos Espíritos?” — diremos que semelhante limite não
existe, ou, melhor, que nada tem de absoluto. Desde que não há
espécies distintas, que a alma é apenas um Espírito encarnado, e
o Espírito apenas uma alma desprendida dos liames terrenos;
que uma e outro são um mesmo ser em meios diferentes, as faculdades e aptidões têm que ser as mesmas. O sonambulismo é
um estado transitório entre a encarnação e a desencarnação, um
estado de desprendimento parcial, um pé antecipadamente posto
no mundo espiritual.
A alma encarnada, ou, se o preferirem o próprio Espírito do
sonâmbulo ou do médium, pode, portanto, fazer quase o que fará
a alma desencarnada e até mais, se for mais adiantado, com a
única diferença, todavia, de que, estando mais livre pelo seu desprendimento completo, a alma tem percepções especiais inerentes ao seu estado.
É por vezes muito difícil distinguir, num dado efeito, o que
provém diretamente da alma do médium do que promana de uma

causa estranha, porque com freqüência as duas ações se confundem e convalidam. É assim que nas curas por imposição das
mãos, o Espírito do médium pode atuar por si só, ou com a assistência de outro Espírito; que a inspiração poética ou artística
pode ter dupla origem. Mas, do fato de ser difícil fazer-se uma
distinção como essa não se segue seja ela impossível. Não raro, a
dualidade é evidente e, em todos os casos, quase sempre ressalta
de atenta observação.

Do livro: O Livro dos Médiuns, Allan Kardec.