Caro Mestre:
Algum tempo já faz que não dou sinal de vida. Muito
ocupado sempre, durante a minha estada em Lião, não pude
ter conhecimento tão perfeito, quanto desejara, do estado
atual da doutrina, neste grande centro. A uma única
reunião espírita assisti. Entretanto, cheguei a comprovar
que, neste meio, a primitiva fé continua sendo qual deve
ser nos corações verdadeiramente sinceros.
Em diversos outros Centros do Meio-dia, ouvi discutirem a seguinte opinião externada por alguns magnetizadores: que muitos fenômenos, ditos espíritas, são simples efeitos de sonambulismo e que o Espiritismo mais não fez do
que se substituir ao magnetismo, ou, antes, do que lhe substituir ridiculamente o nome. É, como vedes, um novo ataque
dirigido contra a mediunidade. Assim, segundo essas pessoas, tudo o que escrevem os médiuns resulta das faculdades da alma encarnada; é esta quem, desprendendo-se
momentaneamente, lê o pensamento das pessoas presentes; é ela quem vê, a distância, e prevê os acontecimentos;
quem, por meio de um fluido magnético-espiritual, agita,
levanta, derriba mesas, ouve os sons, etc. Tudo, em suma,
assentaria na essência anímica, sem a intervenção de seres
puramente espirituais.
Direis que não vos dou nenhuma novidade. Eu mesmo, com efeito, tenho ouvido, desde alguns anos, a sustentação dessa tese por parte de alguns magnetizadores. Agora, porém, procuram implantar essas idéias que, a meu
ver, são contrárias à verdade. É sempre errôneo cair nos
extremos e tanto exagero há em tudo atribuir-se ao Magnetismo, quanto haveria, da parte dos espíritas, em negarem
as leis do Magnetismo. Não se poderiam arrebatar à maté-
ria as leis magnéticas, como não se poderiam arrebatar ao
Espírito as leis puramente espirituais.
Onde acaba o poder da alma sobre os corpos? Qual a
parte dessa força inteligente nos fenômenos do Magnetismo?
Qual a do organismo? Aí estão questões de muito interesse,
questões graves para a Filosofia, como para a Medicina.
Aguardando a solução desses problemas, citar-vos-ei
algumas passagens de Charpignon, o doutor de Orléans,
partidário da transmissão do pensamento. Vereis que ele
se reconhece impotente para demonstrar que, na visão propriamente dita, a causa reside na extensão do simpático
orgânico, como o pretendem muitos autores.
Diz, à pág. 289:
“Acadêmicos, duplicai o trabalho dos vossos candidatos; moralistas, promulgai leis para a sociedade, para o
mundo, esse mundo que de tudo ri, que quer os seus gozos, desprezando as leis de Deus e os direitos do homem e
que zomba dos vossos esforços, porque tem a seu serviço
uma força de que não suspeitais e que deixastes crescesse
de tal maneira, que não sois senhores de contê-la.
À pág. 323:
“Compreendemos muito bem, até aqui, o modo de
transmissão do pensamento, mas somos incapazes de compreender, por meio dessas leis de simpatia harmônica, o
sistema pelo qual o homem forma em si mesmo tal ou tal
pensamento, tal ou tal imagem, e a solicitação de objetos
exteriores. Isso está fora das propriedades do organismo e
a psicologia, achando nessa faculdade rememorativa ou
criadora, conforme o desejo do homem, alguma coisa de
antagônico com as propriedades do organismo, fá-la depender de um ser substancial, diferente da matéria. Come-
çamos, então, a encontrar, no fenômeno do pensamento,
algumas lacunas entre a capacidade das leis fisiológicas do
organismo e o resultado obtido. O rudimento do fenômeno,
se assim nos podemos exprimir, é bem fisiológico, mas a
sua extensão, verdadeiramente prodigiosa, não o é. E, aqui,
necessário se torna admitir que o homem goza de uma faculdade que não pertence a nenhum dos dois elementos
materiais de que, até ao presente, o temos visto composto.
O observador de boa-fé reconhecerá, pois, uma terceira parte
que entrará na composição do homem, parte que começa a se lhe revelar, do ponto de vista da psicologia magnética,
por meio de caracteres novos, e que se relacionam com o
que os filósofos atribuem à alma.
“A existência, porém, da alma se encontra mais fortemente demonstrada pelo estudo de algumas outras faculdades do sonambulismo magnético. Assim, a visão a distância,
quando completa e nitidamente destacada da transmissão
do pensamento, não poderia, segundo a nossa maneira de
ver, explicar-se pela extensão do simpático orgânico.”
Depois, à pág. 330:
“Tínhamos, como se vê, grandes motivos para avançar
que o estudo dos fenômenos magnéticos guarda fortes
relações com a filosofia e a psicologia. Assinalamos um
trabalho a ser feito e a fazê-lo convidamos os homens da
especialidade.”
Nas páginas seguintes, trata dos seres imateriais e de
suas possíveis relações com as nossas individualidades.
Pág. 349:
“Para nós, é fora de dúvida e precisamente por motivo
das leis psicológicas que esboçamos neste trabalho, que a
alma humana pode ser esclarecida diretamente, ou por
Deus, ou por uma outra inteligência. Cremos que essa comunicação sobrenatural pode dar-se, assim no estado
normal, como no estado extático, seja espontâneo, seja
artificial."
Pág. 351:
“Mas, insistimos em dizer que a previsão natural no
homem é limitada e não poderia ser tão precisa, tão constante e tão amplamente exposta, como as previsões feitas
pelos profetas sagrados, ou por homens que tinham a
inspirá-los uma inteligência superior à alma humana.”
Pág. 391:
“A Ciência e a crença no mundo sobrenatural são dois
termos antagônicos; mas, apressamo-nos a dizê-lo, são-no
em conseqüência das exagerações que surgiram dos dois
lados. É possível, ao nosso parecer, que a Ciência e a lei
façam aliança; então, o espírito humano se achará no nível
da sua perfectibilidade terrestre.”
Pág. 396:
“O Antigo, tanto quanto o Novo Testamento, assim como
os anais de todos os povos, estão cheios de fatos que não se
podem explicar, a não ser pela ação de seres superiores ao
homem. Aliás, os estudos de Antropologia, de Metafísica e
de Ontologia provam a realidade da existência de seres
imateriais entre o homem e Deus e a possibilidade de eles
influírem sobre a espécie humana.”
Agora, a opinião de uma das principais autoridades
em Magnetismo, sobre a existência de seres fora da Humanidade. Extraímo-la da correspondência de Deleuze com o
Dr. Billot:
“O único fenômeno que parece comprovar a comunicação com os seres imateriais são as aparições, das quais
há muitos exemplos. Como estou convencido da imortalidade da alma, não encontro razões para negar a possibilidade da aparição das pessoas que, tendo deixado esta vida, se preocupam com os que aqui lhes foram caros e vêm
apresentar-se-lhes, para lhes darem salutares conselhos.”
O Dr. Ordinaire, de Mâcon, outra autoridade na matéria,
assim se exprime:
“O fogo sagrado, a influência secreta (de Boileau), a
inspiração, não provêm, pois, de tal ou tal contextura, como
o pretendem os frenologistas, mas de uma alma poética,
em relação com um Gênio ainda mais poético. O mesmo
com relação à música, à pintura, etc. Essas inteligências
superiores não seriam almas desprendidas da matéria e
que se elevam gradualmente, à medida que se depuram,
até à grande, à universal inteligência que as abrange todas,
até Deus? Não tomariam lugar as nossas almas, após
diversas migrações, entre esses seres materiais?”
“Do que precede, diz o mesmo autor, concluímos: que
o estudo da alma ainda está na infância; que, existindo, do
pólipo ao homem, uma série de inteligências e sendo certo
que nada em a Natureza se interrompe bruscamente, é racional que exista, do homem a Deus, outra série de inteligências. O homem é o elo que liga as inteligências inferiores, associadas à matéria, às inteligências superiores,
imateriais. Do homem a Deus desdobra-se uma série semelhante à que vai do pólipo ao homem, isto é, uma série de
seres etéreos, mais ou menos perfeitos, no gozo de especialidades diversas, com empregos e funções variadas.
“Qu e e s s a s i n t e l i g ê n c i a s s u p e r i o r e s s e r e v e l am
tangivelmente no sonambulismo artificial;
“Que essas inteligências têm relações íntimas com as
nossas almas; “Que a essas inteligências é que devemos os remorsos, quando praticamos o mal, e o contentamento, quando
praticamos uma boa ação;
“Que a essas inteligências é que os homens superiores
devem as boas inspirações;
“Que a essas inteligências é que os extáticos devem a
faculdade de prever o futuro e de anunciar acontecimentos
porvindouros;
“Enfim, que, para atuar sobre essas inteligências e torná-
-las propícias, ação poderosa têm a virtude e a prece.”
NOTA — A opinião de tais homens, e eles não são os únicos, tem
decerto um valor que ninguém poderia contestar; porém, nunca
passaria de uma opinião mais ou menos racional, se a observa-
ção não a confirmasse. O Espiritismo está todo nas idéias que
acabamos de citar; apenas, ele as completa por meio de observa-
ções especiais e as coordena, imprimindo-lhes a sanção da experiência.
Os que se obstinam em negar a existência do mundo espiritual, sem poderem, contudo, negar os fatos, se esfalfam por lhes
encontrar a causa exclusivamente no mundo corpóreo. Mas, uma
teoria, para ser verdadeira, tem que explicar todos os fatos a que
diz respeito; um único fato contraditório a destrói, porquanto não
há exceções nas leis da Natureza. Foi o que aconteceu à maioria
das que no princípio se imaginaram para explicar os fenômenos
espíritas. Quase todas caíram, uma a uma, diante de fatos que
elas não abrangiam. Depois de haverem experimentado, sem resultado algum, todos os sistemas, forçoso se tornou volverem às
teorias espíritas, como as mais concludentes, porque, não tendo sido formuladas prematuramente e sobre observações feitas à
pressa, abrangem todas as variedades, todos os matizes dos fenômenos. O que fez fossem aceitas tão rapidamente pela maioria
das gentes foi que cada um achou nelas a solução completa e
satisfatória para o que inutilmente procuram resolver por outras
vias.
Entretanto, muitos ainda as repelem, o que é comum a todas as grandes idéias novas que mudam os hábitos e as crenças,
as quais todas esbarraram durante longo tempo em contraditores
obstinados, mesmo entre os homens mais esclarecidos. Um dia,
porém, chega em que o que é verdadeiro sobreleva o que é falso e
todos se admiram da oposição que lhe moveram, tão natural parece o que fora repelido. O mesmo se dará com o Espiritismo,
sendo de notar-se que de todas as grandes idéias que hão revolucionado o mundo, nenhuma conquistou em tão pouco tempo tão
grande número de adeptos em todos os países e em todas as camadas sociais. Tal a razão por que os espíritas, cuja fé não é cega,
antes se funda na observação, não se preocupam nem com os seus
contraditores, nem com os que lhes partilham das idéias. Eles
ponderam que, ressaltando das próprias leis da Natureza, em vez
de basear-se numa derrogação dessas leis, não pode a Doutrina
deixar de prevalecer, desde que essas leis sejam reconhecidas.
Como todos sabem, não é nova a idéia da existência de seres
intermediários entre Deus e o homem. Em geral, porém, toda gente
supunha que esses seres constituíam uma criação à parte. As
religiões os designaram pelos nomes de anjos e demônios, os pagãos lhes chamavam deuses. Provando que tais seres não são
senão as almas dos homens em diferentes graus da escala espiritual, o Espiritismo reintegra a criação na unidade grandiosa que
é a essência mesma das leis divinas. Em vez de uma imensidade de
criações estacionárias, que implicariam, da parte da Divindade, capricho ou parcialidade, ele mostra haver uma única, essencialmente progressiva, sem privilégio para qualquer criatura, elevando-se cada individualidade do estado de embrião ao de desenvolvimento completo, como o gérmen que da semente se eleva ao
estado de árvore. O Espiritismo, pois, revela a unidade, a harmonia e a justiça na Criação. Segundo ele, os demônios são as
almas atrasadas, ainda prenhes dos vícios da Humanidade; os
anjos são essas mesmas almas depuradas e desmaterializadas;
entre esses dois pontos extremos, a multidão das almas nos diferentes graus da escala progressiva. Estabelece desse modo a
solidariedade entre o mundo espiritual e o mundo corpóreo.
Quanto à questão proposta: — “Nos fenômenos espíritas ou
sonambúlicos, qual o limite onde cessa a ação própria da alma e
começa a dos Espíritos?” — diremos que semelhante limite não
existe, ou, melhor, que nada tem de absoluto. Desde que não há
espécies distintas, que a alma é apenas um Espírito encarnado, e
o Espírito apenas uma alma desprendida dos liames terrenos;
que uma e outro são um mesmo ser em meios diferentes, as faculdades e aptidões têm que ser as mesmas. O sonambulismo é
um estado transitório entre a encarnação e a desencarnação, um
estado de desprendimento parcial, um pé antecipadamente posto
no mundo espiritual.
A alma encarnada, ou, se o preferirem o próprio Espírito do
sonâmbulo ou do médium, pode, portanto, fazer quase o que fará
a alma desencarnada e até mais, se for mais adiantado, com a
única diferença, todavia, de que, estando mais livre pelo seu desprendimento completo, a alma tem percepções especiais inerentes ao seu estado.
É por vezes muito difícil distinguir, num dado efeito, o que
provém diretamente da alma do médium do que promana de uma
causa estranha, porque com freqüência as duas ações se confundem e convalidam. É assim que nas curas por imposição das
mãos, o Espírito do médium pode atuar por si só, ou com a assistência de outro Espírito; que a inspiração poética ou artística
pode ter dupla origem. Mas, do fato de ser difícil fazer-se uma
distinção como essa não se segue seja ela impossível. Não raro, a
dualidade é evidente e, em todos os casos, quase sempre ressalta
de atenta observação.
Do livro: O Livro dos Médiuns, Allan Kardec.
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