Sobremodo interessado no expressivo caso de Marcelo, apresentei a
Calderaro, no dia seguinte, certas questões que fortemente me preocupavam.
Os reflexos condicionados não se aplicariam, igualmente, a diversos
fenômenos medianlmicos? não elucidavam as mistificações inconscientes que,
muita vez, perturbam os círculos dos experimentadores encarnados?
Alguns estudiosos do Espiritismo, devotados e honestos, reconhecendo os
escolhos do campo do mediunismo, criaram a hipótese do fantasma anímico do
próprio medianeiro, o qual agiria em lugar das entidades desencarnadaS. Seria
essa teoria adequada ao caso vertente? Sob a evocação de certas imagens, o
pensamento do médium não se tornaria sujeito a determinadas associaçõeS,
interferindo automàticamente no intercâmbio entre os homens da Terra e os
habitantes do Além? Tais intervenções, em muitos casos, poderiam provocar
desequilíbrioS intensos. Ponderando observações ouvidas nos últimos tempos,
em vários centros de cultura espiritualista, com referência ao assunto, inquiria
de mim mesmo se o problema oferecia relações com os mesmos princípios de
Pavlov.
O instrutor ouviu-me, paciente, até ao fim de minhas considerações, e
respondeu, benévolo:
- A consulta exige meditação mais acurada. A tese animista é respeitável.
Partiu de investigadores conscienciosos e sinceros, e nasceu para coibir os
prováveis abusos da imaginação; entretanto, vem sendo usada cruelmente
pela maioria dos nossos colaboradores encarnados, que fazem dela um órgão
inquisitorial, quando deveriam aproveitá-la como elemento educativo, na ação
fraterna. Milhares de companheiros fogem ao trabalho, amedrontados, recuam
ante os percalços da iniciação mediúnica, porque o animismo se converteu em
Cérbero. Afirmações sérias e edificantes, tornadas em opressivo sistema,
impedem a passagem dos candidatos ao serviço pela gradação natural do
aprendizado e da aplicação. Reclama-se deles precisão absoluta, olvidando-se
lições elementares da natureza. Recolhidos ao castelo teórico, inúmeros
amigos nossos, em se reunindo para o elevado serviço de intercâmbio com a
nossa esfera, não aceitam comumente os servidores, que hão-de crescer e de
aperfeiçoar-se com o tempo e com o esforço. Exigem meros aparelhos de
comunicação, como se a luz espiritual se transmitisse da mesma sorte que a
luz elétrica por uma lâmpada vulgar. Nenhuma árvore nasce produzindo, e
qualquer faculdade nobre requer burilamento. A mediunidade tem, pois sua
evolução, seu campo, sua rota. Não é possível laurear o estudante no curso
superior, sem que ele tenha tido suficiente aplicação nos cursos preparatórios,
através de alguns anos de luta, de esforço, de disciplina. Daí, André, nossa
legitima preocupação em face da tese animista, que pretende enfeixar toda a
responsabilidade do trabalho espiritual numa cabeça única, isto é, a do
instrumento mediúnico. Precisamos de apelos mais altos, que animem os
cooperadores incipientes, proporcionando-lhes mais vastos recursos de
conhecimento na estrada por eles mesmos perlustrada, a fim de que a
espiritualidade santificante penetre os fenômenos e estudos atinentes ao
espírito.
Fez pequeno intervalo que não ousei interromper, fascinado pela elevação
dos conceitos ouvidos, e continuou: — Vamos à tua sugestão. Os reflexos condicionados enquadram-se,
efetivamente, no assunto; no entanto, cumpre-nos investigar domínio de mais
graves apreciações. Os animais de Pavlov demonstravam capacidade
mnemônica; memorizavam fatos por associações mentais espontâneas. Isto
quer dizer que mobilizavam matéria sutil, independente do corpo denso; que
jogavam com forças mentais em seu aparelhamento de impulsos primitivos. Se
as «onsciênciaS fragmentádaSi’ do experimento eram capazes de usar essa
energia, provocando a repetição de determinados fenômenos no cosmo celular,
que prodígios não realizará a mente de um homem, cedendo, não a meros
reflexos condicionados, mas a emissões de outra mente em sintonia com a
dele? Dentro de tais princípios, é imperioso que o intermediário cresça em valor
próprio. Ocorrências extraordinárias e desconhecidas ocupam a vida em todos
os recantos, mas a elevação condiciona fervorosa procura. Ninguém receberá
as bênçãos da colheita, sem o suor da sementeira. Lamentàvelmente, porém, a
maior parte de nossos amigos parece desconhecerem tais imposições de
trabalho e de cooperação: exigem faculdades completas. O instrumento
mediúnico é automaticamente desclassificado se não tem a felicidade de exibir
absoluta harmonia com os desencarnados, no campo tríplice das forças
mentais, perispirituais e fisiológicas. Compreendes a dificuldade?
Sim, começava a entender. As elucidações, todavia, eram demasiado
fascinantes para que me abalançasse a qualquer apontamento; guardei, por
isto, a continuação das definições, na postura de humilde aprendiz.
O Assistente percebeu minha íntima atitude e continuou:
— Buscando símbolo mais singelo, figuremos o médium como sendo
uma ponte a ligar duas esferas, entre as quais se estabeleceu aparente solu-
ção de continuidade, em virtude da diferenciação da matéria no campo
vibratório. Para ser instrumento relativamente exato, é-lhe imprescindível haver
aprendido a ceder, e nem todos os artífices da oficina mediúnica realizam, a
breve trecho, tal aquisição, que reclama devoção à felicidade do próximo,
elevada compreensão do bem coletivo, avançado espírito de concurso fraterno
e de serena superioridade nos atritos com a opinião alheia. Para conseguir
edificação dessa natureza, faz-se mister o refúgio frequente à “moradia dos
princípios superiores». A mente do servidor há-de fixar-se nas zonas mais altas
do ser, onde aprenderá o valor das concepções sublimes, renovando-se e
quintessenciando-se para constituir elemento padrão dos que lhe seguem a
trajetória, O homem, para auxiliar o presente, é obrigado a viver no futuro da
raça. A vanguarda impõe-lhe a soledade e a incompreensão, por vezes
dolorosas; todavia, essa condição representa artigo da Lei que nos estatui
adquirir para podermos dar. Ninguém pode ensinar caminhos que não haja
percorrido. Nasce daí, em se tratando da mediunidade edificante, a necessidade de fixação das energias instrumentais no santuário mais alto da
personalidade. Fenômenos — não lhes importa a natureza — é forçoso reconhecer que assediam a criatura em toda parte. A ciência legítima é a conquista
gradual das forças e operações da Natureza, que se mantinham ocultas à
nossa acanhada apreensão. E como somos filhos do Deus Revelador, infinito
em grandeza, éde esperar tenhamos sempre à frente ilimitados campos de
observação, cujas portas se abrirão ao nosso desejo de conhecimento, à
maneira que gradeçam nossos títulos meritórios. Por isto, André, consideramos
que a mediunidade mais estável e mais bela começa, entre os homens, no
império da intuição pura. Moisés desempenhou sua tarefa, compelido pelas expressões fenomênicas que o cercavam; recebe, sob incoercível comoção, os
sublimes princípios do Decálogo, sentindo defrontar-se com figuras e vozes
materializadas do plano espiritual; entretanto, ao mesmo tempo que transmite o
“não matarás”, não parece muito inclinado ao inquebrantável respeito pela vida
alheia; sua doutrina, venerável embora, baseia-se no exclusivismo e no temor.
Com Jesus, o aspecto da mediunidade é diferente. Mantém-se o Mestre em
permanente contacto com o Pai, através da própria consciência, do próprio
coração; transmite aos homens a Revelação Divina, vivendo-a em si mesmo;
não reclama justiça, nem pede compreensão imediata; ama as criaturas e
serve-as, mantendo-se unido a Deus. Em razão disto, a Boa-Nova é
mensagem de confiança e de amor universal. Vemos, pois, dois tipos de
medianeiros do próprio Céu, eminentemente diversos, mostrando qual o
padrão desejável. No mediunismo comum, portanto, o colaborador servirá com
a matéria mental que lhe é própria, sofrendo-lhe as imprecisões naturais diante
da investigação terrestre; e, após adaptar-se aos imperativos mais nobres da
renúncia pessoal, edificará, não de improviso, mas à custa de trabalho
incessante, o templo interior de serviço, no qual reconhecerá a superioridade
do programa divino acima de seus caprichos humanos. Atingida essa
realização, estará preparado para sintonizar-se com o maior número de
desencarnados e encarnados, oferecendo-lhes, como a ponte benfeitora,
oportunidade de se encontrarem uns com os outros, na posição evolutiva em
que permaneçam, através de entendimentos construtivos. Devo dizer-te que
não cogitamos aqui de faculdades acidentais, que aparecem e desaparecem
entre candidatos ao serviço, sem espírito de ordem e de disciplina, verdadeiros
balões de ensaio para os vôos do porvir; referimo-nos à mediunidade aceita
pelo cooperador e mobilizável em qualquer situação para o bem geral.
Comentando atividades e tarefas, devemos salientar os padrões que lhes
digam respeito, e este é o característico da instrumentalidade espiritual nas
esferas superiores. Logicamente, é impossível alcançá-lo de vez; toda obra
impõe começo.
Como revelasse nos olhos a indomável comoção que se apossara de mim
ante os conceitos ouvidos, o Assistente modificou a inflexão da voz e
tranquilizou-me:
— Reportando-nos ainda ao Cristo, importa-nos reconhecer que o Mestre viveu
insulado no «monte divino da consciência», abrindo caminho aos vales
humanos. Claro está que nenhum de nós abriga a pretensão de copiar Jesus;
contudo, precisamos inspirar-nos em suas lições. Há milhões de seres
humanos, encarnados e desencarnados, de mente fixa na região menos
elevada dos impulsos inferiores, absorvidos pelas paixões instintivas, pelos
remanescentes do pretérito envilecido, presos aos reflexos condicionados das
comoções perturbadoras a que, inermes, se entregaram; outros tantos mantêm-se, jungidos à carne e fora dela, na atividade desordenada, em
manifestações afetivas sem rumo, no apego desvairado à forma que passou ou
à situação que não mais se justifica; outros, ainda, param na posição beata do
misticismo religioso exclusivo, sem realizações pessoais no setor da experiência e do mérito, que os integre no quadro da lídima elevação. Subtraído o
corpo físico, a situação prossegue quase sempre inalterada, para o organismo
perispirítico, fruto do trabalho paciente e da longa evolução. Esse organismo,
constituído, embora, de elementos mais plásticos e sutis, ainda é edifício
material de retenção da consciência. Muita gente, no plano da Crosta Planetária, conjetura que o Céu nos revista de túnica angelical, logo que
baixado o corpo ao sepulcro. Isto, porém, 6 grave erro no terreno da
expectativa. Naturalmente, não nos referimos, nestas considerações, a
espíritos da estofa de um Francisco de Assis, nem a criaturas extremamente
perversas, uns e outros não cabíveis em nosso quadro: o zênite e o nadir da
evolução terrestre não entram em nossas cogitações; falamos de pessoas
vulgares, quais nós mesmos, que nos vamos em jornada progressiva, mais ou
menos normal, para concluir que, tal o estado mental que alimentamos, tais as
inteligências, desencarnadas ou encarnadas, que atraímos, e das quais nos
fazemos instrumentos naturais, embora de modo indireto. E a realidade, meu
amigo, é que todos nós, que nos contamos por centenas de milhões, não
prescindimos de medianeiros iluminados, aptos a colocar-nos em comunicação
com as fontes do Suprimento Superior. Necessitamos do auxílio de mais alto,
requeremos o concurso dos benfeitores que demoram acima de nossas
paragens. Para isto, há que organizar recursos de receptividade. Nossa mente
sofre sede de luz, como o organismo terreno tem fome de pão. Amor e
sabedoria são substâncias divinas que nos mantêm a vitalidade.
O instrutor fez breve interrupção e acres-centou:
— Compreendes agora a importância da mediunidade, isto é, da elevação
de nossas qualidades receptivas para alcançarem a necessária sintonia com os
mananciais da vida superior?
Sim, respondi, entendera-lhe as observações, ponderando-lhes a
magnitude.
— Não é serviço que possamos organizar da periferia para o centro —
prosseguiu Calderaro
— e sim do interior para o exterior. O homem encarnado, quase sempre
empolgado pelo sono da ilusão, poderá começar pelo fenômeno; à maneira,
porém, que desperte as energias mais profundas da consciência, sentirá a
necessidade do reajustamento e regressará à causa de modo a aperfeiçoar os
efeitos. Obra de construção, de tempo, de paciência...
Chegados a essa altura da conversação, o orientador convidou-me ao
serviço de assistência a dedicada senhora, médium em processo de formação,
que lhe vinha recebendo socorro para prosseguir na tarefa, com a fortaleza e
serenidade indispensáveis.
Propiciando-me o feliz ensejo, meu gentil interlocutor concluiu:
— O caso é oportuno. Observarás comigo os obstáculos criados pela tese
animista.
Marcava o relógio precisamente vinte horas, quando penetramos
confortável recinto. Várias entidades de nosso plano ali se moviam, ao lado de
onze companheiros reunidos em sessão íntima, consagrada ao serviço da
oração e do desenvolvimento psíquico. Logo à entrada, recebeu-nos atencioso
colega, a quem fui apresentado com sincera satisfação.
Recebi dele, de início, informações condensadas que anotei, contente.
Fora igualmente médico. Deixara a experiência física antes de concretizar
velhos planos de assistência fraternal aos seus inumeráveis doentes pobres.
Guardava o júbilo de uma consciência tranquila, zelara o bem geral quanto lhe
fora possível; contudo, entrevendo a probabilidade de algo fazer além-túmulo,
recebera permissão para cooperar naquele reduzido grupo de amigos, com o
objetivo de efetuar certo plano de socorro aos enfermos desamparados. O
intercâmbio com os desencarnados não poderia transformar os homens em anjos de um dia para outro, mas poderia ajudá-los a ser criaturas melhores.
Impossível seria instalar o paraíso na Crosta do mundo em algumas semanas;
entretanto, era lícito cooperar no aprimoramento da sociedade terrestre, incentivando-se a prática do bem e a devoção à fraternidade. Para esse fim, ali
permanecia, interessado em contribuir na proteção aos doentes menos
aquinhoados.
Acompanhando-lhe os argumentos com admiração, mantive-me silencioso,
mas Calderaro indagou, cortês, após inteirar-se das ocorrências:
— E como vai no desenvolvimento de seus elevados propósitos?
— Dificilmente — informou o interpelado —, os recursos de comunicação
ao meu alcance ainda não são de molde a inspirar confiança à maioria dos
companheiros encarnados. A bem dizer, não me interessa comparecer aqui, de
nome aureolado por terminologia clássica, e nem me abalançaria a oferecer
teses novas, concorrendo com o mundo médico. Guia-me, agora, tão somente
o sadio desejo de praticar o bem. Entretanto...
— Ainda não lhe ouviram os apelos, por intermédio de Eulália? —
perguntou o meu instrutor.
— Não; por enquanto, não. Sempre a mesma suspeita de animismo, de
mistificação Inconsciente...
Ia a palestra a meio, quando o diretor espiritual da casa convidou o colega
a experimentar. Chegara o minuto aprazado. Poderia acercar-se da médium.
Aproximamo-nos do grupo de amigos, imersos em profunda concentração.
Enquanto o novo conhecido se abeirava de uma senhora de porte distinto,
certamente ensaiando a transmissão da mensagem que desejava passar à
esfera carnal, Calderaro observou-me:
— Repara o conjunto. Já fiz meus apontamentos. Com exceção de três
pessoas, os demais, em número de oito, guardam atitude favorável. Todos
esses se encontram na posição de médiuns, pela passividade que
demonstram. Analisa a irmã Eulália e reconhecerás que o estado receptivo
mais adiantado lhe pertence; dos oito cooperadores prováveis, é a que mais se
aproxima do tipo necessário. No entanto, o nosso amigo médico não encontra
em sua organização psicofísica elementos afins perfeitos: nossa colaboradora
não se liga a ele através de todos os seus centros perispirituais; não é capaz
de elevar-se à mesma frequência de vibração em que se acha o comunicante;
não possui suficiente espaço interior” para comungar-lhe as idéias e
conhecimentos; não lhe absorve o entusiasmo total pela Ciência, por ainda não
trazer de outras existências, nem haver construído, na experiência atual, as
necessárias teclas evolucionárias, que só o trabalho sentido e vivido lhe pode
conferir. Eulália manifesta, contudo, um grande poder — o da boa vontade
criadora, sem o qual é impossível o inicio da ascensão às zonas mais altas da
vida. É a porta mais importante, pela qual se entenderá com o médico
desencarnado. Este, a seu turno, para realizar o nobre desejo que o anima, vê-
se compelido, em face das circunstâncias, a pôr de lado a nomenclatura oficial,
a técnica científica, o patrimônio de palavras que lhe é peculiar, as definições
novas, a ficha de renome, que lhe coroa a memória nos círculos dos
conhecidos e dos clientes. Poderá identificar-se com Eulália para a mensagem
precisa, usando também, a seu turno, a boa vontade; e, adotando esta forma
de comunicação, valer-se-á, acima de tudo, da comunhão mental, reduzindo ao
mínimo a influência sobre os centros neuropsíquicos; é que, em matéria de
mediunismo, há tipos idênticos de faculdades, mas enormes desigualdade nos graus de capacidade receptiva, os quais variam infinitamente, como as
pessoas.
O instrutor silenciou por momentos e prosseguiu:
— Não nos esqueça que formamos agora uma equipe de trabalhadores em
ação experimental. Nem o provável comunicante chegou a concretizar as
bases de seu projeto, nem a médium conseguiu ainda suficiente clareza e
permeabilidade para cooperar com ele. Num terreno de atividades definidas,
neste particular, poderíamos agir à vontade; aqui, não: nosso procedimento
deve ser de neutralidade mental, não de interferência. Compreendendo, pois,
que todos os recursos cumpre serem aproveitados no êxito da louvável
edificação, nenhum de nós intervirá, perturbando ou consumindo tempo. é-nos
facultado permutar ideias, analisar a ocorrência, mas com absoluta Isenção de
ânimo. O momento pertence ao comunicante, que não dispõe de aparelhamento mais perfeito para a transmissão.
Nesse instante, indicou-me o colega que, de pé, junto de Eulália, mantinha
a mente iluminada e vibrante num admirável esforço por derruir a natural
muralha, entre a nossa esfera e o campo de matéria densa.
— Anota as particularidades do serviço — disse-me Calderaro, com
significativa inflexão de voz —; todos os companheiros em posição receptiva
estão absorvendo a emissão mental do comunicante, cada qual a seu modo.
Repara calmamente.
Circulei a mesa e vi que os raios de força positiva do mensageiro
efetivamente incidiam em oito pessoas. Reconheci que o tema central do desejo formulado por nosso amigo, no tocante ao projeto de assistência aos
enfermos, alcançava o cérebro dos que se conservavam em atitude passiva; na
tela animada de concentração de energias mentais, cada irmão recebia o
influxo sugestivo, que de logo lhes provocava a livre associação dos
psicanalistas.
Fixei as particularidades com atenção.
Ao receberem a emissão de forças do trabalhador do bem, um cavalheiro
recordou comovente paisagem de hospital; outro rememorou o exemplo de
uma enfermeira bondosa que com ele travara relações; outro abrigou
pensamentos de simpatia para com os doentes desamparados; duas senhoras
se lembraram da caridosa missão de Vicente de Paulo; a uma velhinha acudiu
a ideia de visitar algumas pessoas acamadas que lhe eram queridas; um jovem
reportou-se, em silêncio, a notáveis páginas que lera sobre piedade fraternal
para com todos os semelhantes afastados do equilíbrio físico.
Examinei também as três pessoas que se mantinham impermeáveis ao
serviço benemérito daquela hora. Duas delas contristavam-se por haver perdido uma sessão cinematográfica, e a outra, uma senhora na idade provecta,
retinha a mente na lembrança das ocupações domésticas, que supunha
imperiosas e inadiáveis, mesmo ali, num círculo de oração, onde devera
beneficiar-se com a paz.
Somente Eulália recebia o apelo do comunicante com mais nitidez. Sentiase ao seu lado; envolvia-se em seus pensamentos; possuía-se, não só de
receptividade, mas também de boa disposição para servi-lo.
Decorridos alguns minutos de expectativa e de preparo silencioso, a mão
da médium, orientada pelo médico e movida em cooperação com os estímulos
psicofísicos da intermediária, começou a escrever, em caracteres irregulares,
denunciando o natural conflito de dois cosmos psíquicos diferentes, mas empenhados num só objetivo — a produção de uma obra elevada.
Acompanhei a cena com interesse.
Mais alguns momentos, e fazia-se a leitura do pequeno texto obtido.
O comunicado era vazado em forma singela, como um apelo fraternal.
“Meus irmãos — escrevera o emissário —, que Deus nos abençoe.
‘Identificados na construção do bem, trabalhemos na assistência aos
enfermos, necessitados de nosso concurso entre os longos sofrimentos da provação terrestre, O serviço pertence à boa vontade unida à fé viva. E a
sementeira reclama trabalhadores abnegados, que ignorem cansaço, tristeza e
desânimo.
“Sigamos para a frente.
(Cada pequenina demonstração de esforço próprio, nas realizações da
caridade, receberá do Senhor a Divina Bênção.
(Aprendamos, pois, a socorrer nossos amigos doentes. Através de espessa
noite de dor, sofrem e choram, muita vez em pleno abandono.
(Não vos magoará a contemplação de tal quadro? Lembremo-nos dAquele
Divino Médico que passou, no mundo, fazendo o bem. DEle receberemos a
força necessária para progredir. Estará conosco na grande jornada de
comiseração pelos que padecem.
(Fiamos em vós, em vossa dedicação à causa da bondade evangélica.
(A estrada será talvez difícil e fragosa; entretanto, o Senhor permanecerá
conosco.
(Prossigamos, intimoratos, e que Ele nos abençoe agora e sempre.
O comunicante assinou o nome, e, daí a alguns minutos, encerravam-se os
serviços espirituais da noite.
O presidente da sessão, seguido pelos demais companheiros, Iniciou o
estudo e debate da mensagem. Concordou-se em que era edificante na essência, mas não apresentava índices concludentes da identificação individual;
não procedia, possívelmente, do conhecido profissional que a subscrevera;
faltavam-lhe os característicos especiais, pois um médico usaria nomenclatura
adequada, e se afastaria da craveira comum.
E a tese animista apareceu como tábua de salvação para todos.
Transferiu-se a conversação para complicadas referências ao mundo europeu;
falou-se extensalnente de Richet e do metapsiquismo internacional; Pierre
Janet, Charcot, De Rochas e Aksakof eram a cada passo trazidos à balha.
O comunicante, em nosso plano de ação, dirigiu-se, desapontado, ao meu
orientador e comentou:
— Ora essa! jamais desejei despertar semelhante polêmica doméstica.
Pretendemos algo diferente. Bastar-nos-ia um pouco de amor pelos enfermos,
nada mais.
Calderaro sorriu, sem dizer palavra, e evidenciando preocupação em
objetivo mais importante, acercou-se de Eulália, entristecida.
A médium ouvia as definições preciosas com irrefreável amargura.
Turvara-se-lhe a mente, agora, empanada por densos véus de dúvida. A
argumentação em curso nublava-lhe o entendimento. Marejavam-se-lhe os
olhos de lágrimas, que não chegavam a cair.
Abeirando-se dela, o instrutor falou-me, bondoso:
— Nossos amigos encarnados nem sempre examinam as situações pelo
prisma da justiça real. Eulália é colaboradora preciosa e sincera. Se ainda não
completou as aquisições culturais no campo científico, é suficientemente rica de amor para contribuir à sementeira de luz. Encontra-se, porém, desabrigada,
entre os companheiros invigilantes. Permanece sozinha e, assediada como
está, é suscetível de abater-se. Auxiliemo-la sem detença.
A destra do Assistente espalmada sobre a cabeça de nossa respeitável
irmã expendia brilhantes raios, que lhe desciam do encéfalo ao tórax, qual fluxo
renovador.
A médium, que antes parecia torturada, sopitando a custo a natural reação
às opiniões que ouvia, voltou à serenidade. Caiu-lhe a máscara de
descontentamento, dissipou-se-lhe a tristeza destrutiva; os centros
perispiríticos tornaram à normalidade; a epífise irradiou branda luz. As nuvens
de mágoa, que se lhe esboçavam na mente, esfumaram-se como por encanto.
Em suma, amparada pela atuação direta do meu orientador, Eulália sabia dos
percalços do trabalho e mergulhava-se gradativamente no ameno clima da
compreensão.
Restabelecendo-lhe a tranquilidade, o instrutor, em seguida, conservou as
mãos apoiadas aos lobos frontais, agindo-lhe sobre as fibras inibidoras.
Observei, então, nova mudança. A mente da médium, como que se introvertia,
desinteressando-se da conversação em torno e ficando mais atenta ao nosso
campo de ação. O contacto benéfico do Assistente cortava-lhe, de modo
imperceptível para ela, o interesse pelas referências sem proveito,
convocando-a a mais íntimo intercâmbio conosco.
Com ternura paternal, Calderaro, conservando as mãos na mesma postura,
inclinou-se-lhe aos ouvidos e falou carinhosamente:
— “Eulalia, não desanimes! A fé representa a força que sustenta o espírito
na vanguarda do combate pela vitória da luz divina e do amor universal.
Nossos amigos não te acusam, nem te ferem: tão sõmente dormem na ilusão e
sonham, apartados da verdade; exculpa-os pelas futilidades do momento. Mais
tarde eles despertarão para o esforço de espalhar-se o bem... Investigam com
os olhos a superfície das coisas, mas seus ouvidos ainda não escutaram o
sublime apelo à redenção. Sigamos para a frente. Estaremos contigo na tarefa
diária. É necessário amar e perdoar sempre, esquecendo o dia obscuro, a fim
de alcançar os milênios luminosos. Não desfaleças! O Eterno Pai te
abençoará.”
Reparei que Eulália não registrava aquelas palavras com os tímpanos de
carne. Encheram-se-lhe os lobos frontais de intensa luz. As frases comovedoras do instrutor represaram-se-lhe no cérebro e no coração, quais
pensamentos sublimes que lhe caiam do céu, saturados de calor reconfortante
e bendito.
Sim — respondia, do fundo d’alma, a devotada colaboradora, embora os
lábios se lhe cerrassem no incompreendido silêncio —, trabalharia até ao fim,
consciente de que o serviço da verdade pertence ao Senhor, e não aos
homens. Olvidaria todos os golpes. Receberia as objeções dos outros,
transformando-as em auxílios. Converteria as opiniões desanimadoras em
motivos de energia nova. Dar-se-ia pressa em reconhecer os próprios defeitos,
sempre que fôssem indigitados pela franqueza de alguém, rendendo graças
pela oportunidade de corrigi-los, quanto possível. Caminharia para a frente.
Ser-lhe-ia a mediunidade um campo de trabalho, onde aperfeiçoaria os
sentimentos que nutria, sem cogitar dos utensílios para servi-la: que lhe
importavam, com efeito, as dificuldades psicográficas, se lhe pulsava um
coração disposto a amar? Sim, ouviria as sugestões do bem, antes de tudo. Seria fiel a Deus e a si mesma. Se os companheiros humanos não a pudessem
entender, não lhe restava o conforto de ser compreendida pelos amigos da vida
espiritual? Ao termo da experiência terrestre, haveria suficiente luz para todos.
Cumpria-lhe crer, trabalhar, amar e esperar no Divino Senhor.
O Assistente retirou as mãos, deixando-a livre e, reaproximando-se de
mim, asseverou:
— Nossa irmã foi auxiliada e está bem, louvado seja Deus!
Observando os lobos frontais da médium, tão revestidos de luminosidade,
fiz sentir a Calderaro minha admiração.
O instrutor amigo, não se esquivando a novos esclarecimentos, informou:
— Eulália, neste instante, fixa-se mentalmente na região mais alta que lhe é
possível. Recolhe-se, calma, no santuário mais intimo, de modo a compreender
e desculpar com proveito.
Indicando a referida região cerebral, concluiu:
— Nos lobos frontais, André, exteriorização fisiológica de centros
perispiríticos importantes, repousam milhões de células, à espera, para
funcionar, do esforço humano no setor da espiritualização. Nenhum homem,
dentre os mais arrojados pensadores da Humanidade, desde o pretérito até os
nossos dias, logrou jamais utilizá-las na décima parte. São forças de um campo
virgem, que a alma conquistará, não sõmente em continuidade evolutiva, senão
também a golpes de auto-educação, de aprimoramento moral e de elevação
sublime; tal serviço, meu amigo, só a fé vigorosa e reveladora pode encetar,
como indispensável lâmpada vanguardeira do progresso individual.
Do livro: No Mundo Maior, Francisco Cândido Xavier
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