Dona Ambrosina continuava psicografando várias mensa-
gens, endereçadas aos presentes.
E um dos oradores, sob a influência de benigno mentor da
Espiritualidade, salientava a necessidade de conformação com as
Leis Divinas para que a nossa vida mental se refaça, fazendo jus a
bênçãos renovadoras.
Alguns encarnados jaziam impermeáveis e sonolentos, vam-
pirizados por obsessores caprichosos que os acompanhavam de
perto, entretanto, muitos desencarnados de mediana compreensão
ouviam, solícitos, e sinceramente aplicados ao ensino consolador.
Gabriel, de olhos percucientes e lúcidos, a tudo presidia com
firmeza.
Nenhuma ocorrência, por mínima que fosse, lhe escapava à
percepção.
Aqui, a um leve sinal seu, entidades escarnecedoras eram e-
xortadas à renovação de atitude, ali, socorriam-se doentes que ele
indicava com silencioso gesto de recomendação.
Era o pulso de comando, forte e seguro, sustentando a harmo-
nia e a ordem, na exaltação do trabalho.
Contemplamos a mesa enorme em que a direção se processa-
va com equilíbrio irrepreensível e, fitando a médium, rodeada de
apetrechos do serviço, em atividade constante, Hilário perguntou
ao nosso orientador:
– Por que tantas mensagens pessoais dos Espíritos amigos?
– São respostas reconfortantes a companheiros que lhes soli-
citam assistência e consolo.
– E essas respostas – continuou meu colega – traduzem equa-
ção definitiva para os problemas que expõem?
– Isso não – aclarou o Assistente, convicto –; entre o auxílio e
a solução vai sempre alguma distância em qualquer dificuldade, e
não podemos esquecer que cada um de nós possui os seus pró-
prios enigmas.
– Se é assim, por que motivo o intercâmbio? se os desencar-
nados não podem oferecer uma conclusão pacífica aos tormentos
dos irmãos que ainda se demoram na carne, por que a porta aberta
entre eles e nós?
– Não te esqueças do impositivo da cooperação na estrada de
cada ser – disse Áulus com grave entono. – Na vida eterna, a
existência no corpo físico, por mais longa, é sempre curto período
de aprendizagem. E não nos cabe olvidar que a Terra é o campo
onde ferimos a nossa batalha evolutiva. Dentro dos princípios de
causa e efeito, adquirimos os valores da experiência com que
estruturamos a nossa individualidade para as Esferas Superiores.
A mente, em verdade, é o caminheiro buscando a meta da angeli-
tude, contudo, não avançará sem auxílio. Ninguém vive só. Os
pretensos mortos precisam amparar os companheiros em estágio
na matéria densa, porquanto em grande número serão compelidos
a novos mergulhos na experiência carnal. É da Lei que a sabedo-
ria socorra a ignorância, que os melhores ajudem aos menos bons.
Os homens, cooperando com os Espíritos esclarecidos e benevo-
lentes, atraem simpatias preciosas para a vida espiritual, e as
entidades amigas, auxiliando os reencarnados, estarão construindo
facilidades para o dia de amanhã, quando de volta à lide terrestre.
– Sim, sim, compreendo... – exclamou Hilário, reconhecido. –
Entretanto, colocando-me na situação da criatura vulgar, recordo-
me de que no mundo habituamo-nos a esperar do Céu uma solu-
ção decisiva e absoluta para inúmeros problemas que se nos depa-
ram...
– Semelhante atitude, porém – acentuou o orientador –, de-
corre de antiga viciação mental no Planeta. Para maior clareza do
assunto, reme-moremos a exemplificação do Divino Mestre.
Jesus, o Governador Espiritual do Mundo, auxiliou a doentes e
aflitos, sem retirá-los das questões fundamentais que lhes diziam
respeito. Zaqueu, o rico prestigiado pela visita que lhe foi feita,
sentiu-se constrangido a modificar a sua conduta. Maria de Mag-
dala, que lhe recebeu carinhosa atenção, não ficou livre do dever
de sustentar-se no árduo combate da renovação interior. Lázaro,
reerguido das trevas do sepulcro, não foi exonerado da obrigação
de aceitar, mais tarde, o desafio da morte. Paulo de Tarso foi por
Ele distinguido com um apelo pessoal, às portas de Damasco,
entretanto, por isso, o apóstolo não obteve dispensa dos sacrifícios
que lhe cabiam no desempenho da nova missão. Segundo reco-
nhecemos, seria ilógico aguardar dos desencarnados a liquidação
total das lutas humanas. Isso significaria furtar o trabalho que
corresponde ao sustento do servidor, ou subtrair a lição ao aluno
necessitado de luz.
A essa altura, não longe de nós, simpática senhora monologa-
va em pensamento:
– Meu filho! meu filho! se você não está morto, visite-me!
Venha! venha! Estou morrendo de saudade, de angústia!... fale-
me alguma palavra pela qual nos entendamos... Se tudo não está
acabado, aproxime-se da médium e comunique-se! É impossível
que você não tenha piedade...
As frases amargas, embora inarticuladas, atingiam-nos a au-
dição, qual se fossem arremessadas ao ambiente em voz abafadi-
ça.
Leve rumor à retaguarda feriu-nos a atenção. Um rapaz de-
sencarnado apresentou-se em lastimáveis condições e avançou
para a triste mulher, dominado por invencível atração. Da boca
amarfanhada escorria a amargura em forma de palavras comove-
doras.
– Mãe! mãe! – gritava de joelhos, qual se fora atormentada
criança, conchegando-se-lhe ao regaço – não me abandone!...
Estou aqui, ouça-me! não morri... perdoe-me, perdoe-me!... sou
um renegado, um náufrago!... Busquei a morte quando eu deveria
viver para o seu carinho! Agora sim! Vejo o sofrimento de perto e
desejaria aniquilar-me para sempre, tal a vergonha que me aflige
o coração!...
A matrona não lhe via a figura agoniada, contudo, registrava-
lhe a presença, através de intraduzível ansiedade, a constringir-lhe
o peito.
Dois vigilantes aproximaram-se, arrebatando o moço ao colo
materno, e, ladeando por nossa vez o Assistente, que se deu pressa
em socorrer a senhora em lágrimas, ouvimo-la clamar, mental-
mente:
– “Não será melhor segui-lo? Morrer e descansar!... Meu fi-
lho, quero meu filho!...”
Áulus aplicou-lhe recursos magnéticos, com o que a desven-
turada criatura experimentou grande alívio, e, em seguida, infor-
mou:
– Anotemos o caso desta pobre mãe desarvorada. O filho sui-
cidou-se, há meses, e ainda não consegue forrar-se à flagelação
Intima. Em sua devoção afetiva, reclama-lhe a manifestação
pessoal sem saber o que pede, porque a chocante posição do rapaz
constituir-lhe-ia pavoroso martírio. Não poderá, desse modo,
recolher-lhe a palavra direta, entretanto, ao contacto do trabalho
espiritual que aqui se processa, incorporará energias novas para
refazer-se gradualmente.
– Decerto – acrescentou Hilário, com inteligência –, não terá
resolvido o problema crucial da sensibilidade ferida, no entanto,
adquire forças para recuperar-se...
– Isso mesmo.
– Aliás – considerei a meu modo –, a mediunidade de hoje é,
na essência, a profecia das religiões de todos os tempos.
– Sim – aprovou Áulus, prestimoso –, com a diferença de que
a mediunidade hoje é uma concessão do Senhor à Humanidade em
geral, considerando-se a madureza do entendimento humano, à
frente da vida, O fenômeno mediúnico não é novo. Nova é tão-
somente a forma de mobilização dele, porque o sacerdócio de
várias procedências jaz, há muitos séculos, detido nos espetáculos
do culto exterior, mumificando indebitamente o corpo das revela-
ções celestiais. Notadamente o Cristianismo, que deveria ser a
mais ampla e a mais simples das escolas de fé, há muito tempo
como que se enquistou no superficialismo dos templos. Era preci-
so, pois, libertar-lhe os princípios, a benefício do mundo que,
cientificamente, hoje se banha no clarão de nova era. Por esse
motivo, o Governo oculto do Planeta deliberou que a mediunidade
fosse trazida do colégio sacerdotal à praça pública, a fim de que a
noção da eternidade, através da sobrevivência da alma, desperte a
mente anestesiada do povo. É assim que Jesus nos reaparece,
agora, não como fundador de ritos e fronteiras dogmáticas, mas
sim em sua verdadeira feição de Redentor da Alma Humana.
Instrumento de Deus por excelência, Ele se utilizou da mediuni-
dade para acender a luz da sua Doutrina de Amor. Restaurando
enfermos e pacificando aflitos, em muitas ocasiões esteve em
contacto com os chamados mortos, alguns dos quais não eram
senão almas sofredoras a vampirizarem obsidiados de diversos
matizes. E, além de surgir em colóquio com Moisés materializado
no Tabor, Ele mesmo é o grande ressuscitado, legando aos ho-
mens o sepulcro vazio e acompanhando os discípulos com acen-
drado amor, para que lhe continuassem o apostolado de bênçãos.
Hilário esboçou o sorriso de um estudante satisfeito com a li-
ção, e exclamou:
– Ah! sim, tenho a impressão de começar a compreender...
Os trabalhos da reunião tocavam a fase terminal.
Nosso orientador percebeu que Gabriel se dispunha a grafar a
mensagem do encerramento e, respeitoso, pediu-lhe cunhar alguns
conceitos em derredor da mediunidade, ao que o supervisor aqui-
esceu, gentil.
Dona Ambrosina entrara em pausa ligeira para alguns mo-
mentos de recuperação.
O diretor da reunião rogou silêncio para o remate dos servi-
ços, e, tão logo reverente quietação se fez na assembléia, o condu-
tor da casa controlou o cérebro da medianeira e tomou-lhe o bra-
ço, escrevendo aceleradamente.
Em minutos rápidos, os apontamentos de Gabriel estavam
concluídos.
A médium levantou-se e passou a lê-los em voz alta:
– “Meus amigos – dizia o mentor –, é indispensável procurar
na mediunidade não a chave falsa para certos arranjos inadequa-
dos na Terra, mas sim o caminho direito de nosso ajustamento à
vida superior.
“Compreendendo assim a verdade, é necessário renovar a
nossa conceituação de médium, para que não venhamos a trans-
formar companheiros de ideal e de luta em oráculos e adivinhos,
com esquecimento de nossos deveres na elevação própria.
“O Espiritismo, simbolicamente, é Jesus que retorna ao mun-
do, convidando-nos ao aperfeiçoamento individual, por intermé-
dio do trabalho construtivo e incessante.
“Dentro das leis da cooperação, será justo aceitar o braço a-
migo que se nos oferece para a jornada salvadora, entretanto é
imprescindível não esquecer que cada qual de nós transporta
consigo questões essenciais e necessidades intransferíveis.
“Desencarnados e encarnados, todos palmilhamos extenso
campo de experimentações e de provas, condizentes com os im-
positivos de nosso crescimento para a imortalidade.
“Não atribuamos, assim, ao médium obrigações que nos
competem, em caráter exclusivo, e nem aguardemos da mediuni-
dade funções milagreiras, porquanto só a nós cabe o serviço árduo
da própria ascensão, na pauta das responsabilidades que o conhe-
cimento superior nos impõe.
“Diante de nossas assertivas, podereis talvez indagar, segun-
do os velhos hábitos que nos caracterizam a preguiça mental na
Terra: – Se o Espiritismo e a Mediunidade não nos solucionam os
enigmas de maneira absoluta, que estarão ambos fazendo no
santuário religioso da Humanidade?
“Responder-vos-emos, todavia, que neles reencontramos o
pensamento puro do Cristo, auxiliando-nos a compreensão para
mais amplo discernimento da realidade. Neles recolhemos exatos
informes, quanto à lei das compensações, equacionando aflitivos
problemas do ser, do destino e da dor e deixando-nos perceber, de
alguma sorte, as infinitas dimensões para as quais evolvemos. E a
eles deveremos, acima de tudo, a luz para vencer os tenebrosos
labirintos da morte, a fim de que nos consorciemos, afinal, com as
legítimas noções da consciência cósmica.
“Dentro das leis da cooperação, será justo aceitar o braço a-
migo que se nos oferece para a jornada salvadora, entretanto é
imprescindível não esquecer que cada qual de nós transporta
consigo questões essenciais e necessidades intransferíveis.
“Desencarnados e encarnados, todos palmilhamos extenso
campo de experimentações e de provas, condizentes com os im-
positivos de nosso crescimento para a imortalidade.
“Não atribuamos, assim, ao médium obrigações que nos
competem, em caráter exclusivo, e nem aguardemos da mediuni-
dade funções milagreiras, porquanto só a nós cabe o serviço árduo
da própria ascensão, na pauta das responsabilidades que o conhe-
cimento superior nos impõe.
“Diante de nossas assertivas, podereis talvez indagar, segun-
do os velhos hábitos que nos caracterizam a preguiça mental na
Terra: – Se o Espiritismo e a Mediunidade não nos solucionam os
enigmas de maneira absoluta, que estarão ambos fazendo no
santuário religioso da Humanidade?
“Responder-vos-emos, todavia, que neles reencontramos o
pensamento puro do Cristo, auxiliando-nos a compreensão para
mais amplo discernimento da realidade. Neles recolhemos exatos
informes, quanto à lei das compensações, equacionando aflitivos
problemas do ser, do destino e da dor e deixando-nos perceber, de
alguma sorte, as infinitas dimensões para as quais evolvemos. E a
eles deveremos, acima de tudo, a luz para vencer os tenebrosos
labirintos da morte, a fim de que nos consorciemos, afinal, com as
legítimas noções da consciência cósmica.
“Alcançadas semelhantes fórmulas de raciocínio, pergunta-
remos a vós outros por nossa vez:
“Acreditais seja pouco revelar a excelsitude da Justiça? Ad-
mitis seja desprezível descortinar a vida em suas ilimitadas face-
tas de evolução e eternidade?
“Reverenciemos, pois, o Espiritismo e a Mediunidade como
dois altares vivos no templo da fé, através dos quais contempla
remos, de mais alto, a esfera das cogitações propriamente terres
tres, compreendendo, por fim, que a glória reservada ao espírito
humano é sublime e infinita, no Reino Divino do Universo.”
A comunicação psicográfica tratou de outros assuntos e, finda
a sua leitura, breve oração de reconhecimento foi pronunciada. E
enquanto os assistentes tornavam à conversação livre, Hilário e
eu, ante os conceitos ouvidos, passamos a profunda introversão
para melhor aprender e meditar.
Do livro: Nos Domínios da Mediunidade, Francisco Cândido Xavier
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