domingo, 13 de novembro de 2011

Forças Viciadas


Caía a noite...
Após o dia quente, a multidão desfilava na via pública, evi-
dentemente buscando o ar fresco.
Dirigíamo-nos a outro templo espírita, em companhia de Áu-
us, segundo o nosso plano de trabalho,  quando tivemos nossa
atenção voltada para enorme gritaria.
Dois guardas arrastavam, de  restaurante barato, um homem
maduro em deploráveis condições de embriaguez.
O mísero esperneava e proferia palavras rudes, protestando...
– Observem o nosso infeliz irmão! – determinou o orientador.

E porque não havia muito tempo entre a porta ruidosa e o car-
ro policial, pusemo-nos em observação.
Achava-se o pobre amigo abraçado por uma entidade da som-
bra, qual se um polvo estranho o absorvesse.
Num átimo, reparamos que a bebedeira alcançava os dois,
porquanto se justapunham completamente um ao outro, exibindo
as mesmas perturbações.
Em breves instantes, o veículo buzinou com pressa e não nos
foi possível dilatar anotações.
– O quadro daria ensejo a valiosos apontamentos...

Ante a alegação de Hilário, o Assistente considerou que dis-
púnhamos de tempo bastante para  a colheita de alguns registros
interessantes e convidou-nos a entrar.
A casa de pasto regurgitava...
Muita alegria, muita gente.

Lá dentro, certo recolheríamos material adequado a expressi-
vas lições.
Transpusemos a entrada.
As emanações do ambiente produziam em nós indefinível
mal-estar.
Junto de fumantes e bebedores inveterados, criaturas desen-
carnadas de triste feição se demoravam expectantes.
Algumas sorviam as baforadas de fumo arremessadas ao ar,
ainda aquecidas pelo calor dos pulmões que as expulsavam, nisso
encontrando alegria e alimento.  Outras aspiravam o hálito de
alcoólatras impenitentes.
Indicando-as, informou o orientador:

– Muitos de nossos irmãos, que já se desvencilharam do vaso
carnal, se apegam com tamanho desvario às sensações da experi-
ência física, que se cosem àqueles nossos amigos terrestres tem-
porariamente desequilibrados nos desagradáveis costumes por que
se deixam influenciar.
– Mas por que mergulhar, dessa forma, em prazeres dessa es-
pécie?
– Hilário – disse o Assistente, bondoso –, o que a vida come-
çou, a morte continua... Esses nossos companheiros situaram a
mente nos apetites mais baixos do mundo, alimentando-se com
um tipo de emoções que os localiza na vizinhança da animalidade.
Não obstante haverem freqüentado  santuários religiosos, não se
preocuparam em atender aos princípios da fé  que abraçaram,

acreditando que a existência devia ser para eles o culto de satisfa-
ções menos dignas, com a exaltação dos mais astuciosos e dos
mais fortes. O chamamento da morte encontrou-os na esfera de
impressões delituosas e escuras e, como é da Lei que cada alma
receba da vida de  conformidade com aquilo que dá, não encon-
tram interesse senão nos lugares onde podem nutrir as ilusões que

lhes são peculiares,  porquanto, na posição  em que se vêem, te-
mem a verdade e abominam-na,  procedendo como a coruja que
foge à luz.
Meu colega fez um gesto de piedade e indagou:
– Entretanto, como se transformarão?
– Chegará o dia em que a própria Natureza lhes esvaziará o
cálice – respondeu Áulus, convicto. – Há mil processos de reajus-
te, no Universo Infinito em que se cumprem os Desígnios do
Senhor, chamem-se eles aflição, desencanto, cansaço, tédio, so-
frimento, cárcere...
– Contudo – ponderei –, tudo indica que esses Espíritos infor-
tunados não se enfastiarão tão cedo da loucura em que se compra-
zem...

– Concordo plenamente – redargüiu o instrutor –, todavia,
quando não se fatiguem, a Lei poderá conduzi-los a prisão regene-
radora.
– Como?
A pergunta de Hilário ecoou, cristalina, e o Assistente deu-se
pressa em explicar:
– Há dolorosas reencarnações  que significam tremenda luta
expiatória para as almas necrosadas no vício. Temos, por exem-
plo, o mongolismo, a hidrocefalia, a paralisia, a  cegueira, a epi-
lepsia secundária, o  idiotismo, o aleijão de nascença e muitos
outros recursos, angustiosos embora, mas necessários, e que po-
dem funcionar, em benefício da mente desequilibrada, desde o
berço, em plena fase infantil. Na maioria das vezes, semelhantes
processos de cura prodigalizam bons resultados pelas provações

obrigatórias que oferecem...
– No entanto – comentei –, e se os nossos irmãos encarnados,
visivelmente confiados à devassidão,  resolvessem reconsiderar o
 próprio caminho?... se voltassem à regularidade, através da reno-
vação mental com alicerces no bem?...
– Ah! isso seria ganhar tempo, recuperando a si mesmos e
amparando com segurança os amigos desencarnados... Usando a
alavanca da vontade, atingimos a realização de verdadeiros mila-
gres... Entretanto, para isso, precisariam despender esforço herói-
co.
Observando os beberrões, cujas taças eram partilhadas pelos
sócios que lhes eram invisíveis, Hilário recordou:
– Ontem, visitamos um templo, em que desencarnados sofre-
dores se exprimiam por intermédio de criaturas necessitadas de
auxílio, e ali estudamos algo sobre mediunidade... Aqui, vemos

entidades viciosas valendo-se de pessoas que com elas se afinam
numa perfeita comunhão de forças superiores... Aqui, tanto quan-
to lá, seria lícito ver a mediunidade em ação?
– Sem qualquer dúvida – confirmou o orientador –; recursos
psíquicos, nesse ou naquele grau de desenvolvimento, são peculi-
ares a todos, tanto quanto o poder de locomoção ou a faculdade de
respirar, constituindo forças que o Espírito encarnado ou desen-
carnado pode empregar no bem ou no mal de si mesmo. Ser mé-
dium não quer dizer que a alma esteja agraciada por privilégios ou
conquistas feitas. Muitas vezes, é possível encontrar pessoas
altamente favorecidas com o dom da mediunidade, mas domina-
das, subjugadas por entidades sombrias ou  delinqüentes, com as
quais se afinam de modo perfeito, servindo ao escândalo e à per-
turbação, em vez de cooperarem na extensão do bem. Por isso é

que não basta a mediunidade para a concretização dos serviços
que nos competem. Precisamos da Doutrina do Espiritismo, do
Cristianismo Puro, a fim de controlar a energia medianímica, de
maneira a mobilizá-la  em favor da sublimação espiritual na fé
religiosa, tanto quanto disciplinamos a eletricidade, a benefício do
conforto na Civilização.

Nisso, Áulus relanceou o olhar  pelos aposentos reservados
mais próximos, qual se  já os conhecesse, e,  fixando certa porta,
convidou-nos a atravessá-la.
Seguimo-lo, ombro a ombro.
Em mesa lautamente provida  com fino conhaque, um rapaz,
fumando com volúpia e sob o domínio de uma entidade digna de
compaixão pelo aspecto repelente em que se mostrava, escrevia,
escrevia, escrevia...
– Estudemos – recomendou o orientador.
O cérebro do moço embebia-se em substância escura e pasto-
sa que escorria das mãos do triste companheiro que o enlaçava.
Via-se-lhes a absoluta associação na autoria dos caracteres

escritos.
A dupla em trabalho não nos registrou a presença.
– Neste instante – anunciou Áulus, atencioso –, nosso irmão
desconhecido é hábil médium psicógrafo. Tem as células do
pensamento integralmente controladas pelo infeliz cultivador de
crueldade sob a nossa vista. Imanta-se-lhe à imaginação e lhe
assimila as idéias, atendendo-lhe aos propósitos escusos, através
dos princípios da indução magnética, de vez que o rapaz, desejan-
do produzir páginas escabrosas,  encontrou quem lhe fortaleça a
mente e o ajude nesse mister.
Imprimindo à voz significativa expressão, ajuntou:
– Encontramos sempre o que procuramos ser.

Finda a breve pausa que nos compeliu à reflexão, Hilário re-
começou:
– Todavia, será ele um médium na acepção real do termo? Se-
rá peça ativa em agrupamento espírita comum?

– Não. Não está sob  qualquer disciplina  espiritualizante. É
um moço de inteligência vivaz, sem maior  experiência da vida,
manejado por entidades perturbadoras.
Após inclinar-se alguns momentos sobre os dois, o instrutor
elucidou com benevolência:
– Entre as excitações do álcool e do fumo que saboreiam jun-
tos, pretendem provocar uma reportagem perniciosa, envolvendo
uma família em duras aflições. Houve um homicídio, a cuja mar-
gem aparece a influência de certa jovem, aliada às múltiplas cau-
sas em que se formou o deplorável acontecimento, O rapaz que
observamos, amigo de operoso lidador da imprensa, é de si mes-
mo dado à malícia e, com a antena mental ligada para os ângulos
mais desagradáveis do problema, ao atender um pedido de colabo-

ração do cronista que lhe é companheiro, encontrou,  no caso de
que hoje se encarrega, o concurso de ferrenho e viciado persegui-
dor da menina em foco, interessado em exagerar-lhe a participa-
ção na ocorrência, com o fim de martelar-lhe a mente apreensiva e
arrojá-la aos abusos da mocidade...
– Mas como? – indagou Hilário, espantadiço.
– O jornalista, de posse do comentário calunioso, será o veí-
culo de informações tendenciosas ao público. A moça ver-se-á, de
um instante para outro, exposta às mais desapiedadas apreciações,
e decerto se perturbará, sobremaneira, de vez que não se acumpli-
ciou com o mal, na forma em que se lhe define a colaboração no
crime, O obsessor, usando calculadamente o rapaz com quem se

afina, pretende alcançar o noticiário de sensação, para deprimir a
vida moral dela e, com isso, amolecer-lhe o caráter, trazendo-a, se
possível, ao charco vicioso em que ele jaz.
– E conseguirá? – insistiu meu colega, assombrado.
– Quem sabe?
E, algo triste, o orientador acrescentou:

– Naturalmente a jovem teria  escolhido o gênero de prova-
ções que atravessa, dispondo-se a lutar, com valor, contra as
tentações.
– E se não puder combater com a força precisa?
– Será mais justo “dizer se não quiser”, porque a Lei não nos
confia problemas de trabalho superiores à nossa  capacidade de
solução. Assim,  pois, caso não delibere guerrear a influência
destrutiva, demorar-se-á por muito tempo nas perturbações a que
já se encontra ligada em princípio.
– Tudo isso por quê?
A pergunta de Hilário pairou no ar por aflitiva interrogação,
todavia, Áulus asserenou-nos o ânimo, elucidando:

– Indiscutivelmente, a jovem e o infeliz que a persegue estão
unidos um ao outro, desde muito tempo... Terão estado juntos nas
regiões inferiores da  vida espiritual, antes da reencarnação com
que a menina presentemente vem sendo beneficiada. Reencon-
trando-a na experiência física, de cujas vantagens ainda não parti-
lha, o desventurado companheiro tenta  incliná-la, de novo, à
desordem emotiva, com o objetivo de explorá-la em atuação
vampirizante.
Áulus fez ligeiro intervalo, sorriu melancólico e acentuou:
– Entretanto, falar nisso seria abrir as páginas comoventes de
enorme romance, desviando-nos do fim que nos propomos atingir.
Detenhamo-nos na mediunidade.
Buscando aliviar a atmosfera de indagações que Hilário sem-
pre condensava em torno de si mesmo, ponderei:

– O quadro sob nossa análise induz à meditação nos fenôme-
nos gerais de intercâmbio em que a Humanidade total se envolve
sem perceber...

– Ah! sim! – concordou o orientador – faculdades medianí-
micas e cooperação do mundo espiritual surgem por toda parte.
Onde há pensamento,  há correntes mentais e onde há correntes
mentais existe associação. E toda associação é interdependência e
influenciação recíproca. Daí concluímos quanto à necessidade de
vida nobre, a fim de atrairmos pensamentos que nos enobreçam.
Trabalho digno, bondade, compreensão fraterna, serviço aos
semelhantes, respeito à Natureza e oração constituem os meios
mais puros de assimilar os princípios superiores da vida, porque
damos e recebemos, em espírito, no plano das idéias, segundo leis
universais que não conseguiremos iludir.
Em silencioso gesto com que  nos recordava o dever a cum-
prir, o Assistente convidou-nos à retirada.
Retomamos a via pública.
Mal recomeçávamos a avançar, quando passou por nós uma

ambulância, em marcha vagarosa,  sirenando forte para abrir ca-
minho.
A frente, ao lado do condutor, sentava-se um homem de gri-
salhos cabelos a lhe emoldurarem a fisionomia simpática e preo-
cupada. Junto dele, porém, abraçando-o com naturalidade e doçu-
ra, uma entidade em roupagem lirial lhe envolvia a cabeça em
suaves e calmantes irradiações de prateada luz.
– Oh! – inquiriu Hilário, curioso – quem será aquele homem
tão bem acompanhado?
Áulus sorriu e esclareceu:
– Nem tudo é energia viciada no caminho comum. Deve ser
um médico em alguma tarefa salvacionista.

– Mas, é espírita?
– Com todo o respeito que devemos ao Espiritismo, é imperi-
oso lembrar que a Bênção do Senhor pode descer sobre qualquer

expressão religiosa – afirmou o orientador com expressivo olhar
de tolerância. – Deve ser, antes de tudo, um profissional humani-
tário e generoso que por seus hábitos de ajudar ao próximo se fez
credor do auxílio que  recebe. Não lhe bastariam os títulos de
espírita e de médico para reter a influência benéfica de que se faz
acompanhar. Para acomodar-se  tão harmoniosamente com a enti-
dade que o assiste, precisa possuir uma boa consciência e um
coração que irradie paz e fraternidade.
– Contudo, podemos qualificá-lo como médium? – perguntou
meu companheiro algo desapontado.
– Como não? – respondeu Áulus, convicto.

– É médium de abençoados  valores humanos, mormente no
socorro aos enfermos, no qual incorpora as correntes mentais dos
gênios do bem, consagrados ao amor pelos sofredores da Terra.
E, com significativa inflexão de voz, acrescentou:
– Como vemos, influências do bem ou do mal, na esfera evo-
lutiva em que nos achamos, se estendem por todos os lados e por
todos os lados registramos a presença de faculdades medianími-
cas, que as assimilam, segundo a direção feliz ou infeliz, correta
ou indigna em que cada mente se  localiza. Estudando, assim, a
mediunidade, nos santuários do Espiritismo com Jesus, observa-
mos uma força realmente peculiar a todos os  seres, de utilidade
geral, se sob uma orientação capaz de discipliná-la e conduzi-la
para o máximo aproveitamento no bem. Recordemos a eletricida-
de que, pouco a pouco, vai  transformando a face do mundo. Não

basta ser dono de poderosa cachoeira, com o potencial de milhões
de cavalos-vapor. É preciso instalar, junto dela, a inteligência da
usina para controlar-lhe os recursos, dinamizá-los e distribuí-los,
conforme as necessidades de cada um... Sem isso, a queda d’água
será sempre um quadro vivo de beleza fenomênica, com irremedi-
ável desperdício.

O tempo, contudo, não nos permitia maior delonga na con-
versação e rumamos, desse modo, para um agrupamento em que
os nossos estudos da véspera encontrariam o necessário prosse-
guimento.

Do livro: Nos Domínios da Mediunidade, Francisco Cândido Xavier



























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